quarta-feira, julho 12, 2017

Thoreau aos 200 - JOÃO PEREIRA COUTINHO

FOLHA DE SP - 11/07
Quem lê Henry David Thoreau? Passam amanhã 200 anos do seu nascimento. E os artigos da efeméride não são entusiastas. Thoreau parece "irrelevante", "anedótico", "adolescente". Para voltar ao início: quem lê Thoreau, hoje?

Resposta: eu. Poderia argumentar que a minha costela anarquista é a melhor da minha anatomia política –e uma fonte de equívocos para quem não entende direito o meu "conservadorismo".

Mas devo a Thoreau essa costela. Lembro-me de ler "Walden", pela primeira vez, em plena adolescência. Alguns dirão que "Walden" é, precisamente, um livro adolescente escrito para adolescentes. Ali temos o autor, na primeira pessoa do singular, a relatar dois anos e dois meses de vida no bosque. Afastado da "civilização", enfim, como um Rousseau americano.

A visão é superficial e ignora, pelo menos, duas coisas. A primeira é a beleza da prosa. Como são belas as manhãs em Thoreau –"a manhã traz de volta as eras heroicas" etc., cito de cor– e como são certeiras as suas observações mundanas. "Todos nos rimos das modas antigas", escreve ele, "e todos seguimos religiosamente as modas novas" (também cito de cor). É frase que fica gravada para sempre.

Por causa dele, aprendi a rir mais depressa das modas novas do que das antigas, o que me impediu de as seguir com um entusiasmo –agora, sim– adolescente. Falo de modas ideológicas ou indumentárias, tanto faz: o último grito não passa de um grito.

E também por causa dele, confissão pessoal, cheguei aos 41 sem nunca ter usado relógio. Somos escravos do tempo mas não precisamos exibir as correntes.

Mas leituras superficiais de Thoreau ignoram outro ponto: a escolha de viver junto ao lago Walden expressa um desejo nobre que define toda a sua obra. Qual? O desejo de ser deixado em paz.

Bem sei que, nas sociedades infantilizadas em que vivemos, exigimos da autoridade central uma companhia intrusiva. Não queremos o Estado nas suas funções básicas; exigimos um Estado máximo até para as coisas mínimas.


Na sua "A Desobediência Civil", o programa das festas é diferente para Thoreau: "o melhor governo é o que menos governa", diz ele, logo de início, na impossibilidade de ter governo nenhum.

O texto não se limita a uma condenação da escravidão e da guerra, promovida por um Estado imoral. Thoreau vai mais longe –e ocupa-se de questões pré-políticas que nunca verdadeiramente nos abandonam. Será que o Estado substitui a consciência individual? Ou esta pertence apenas aos homens, o que logicamente exclui um Estado moralista que determina como devemos viver ou morrer?

Cem anos antes das grandes carnificinas do século 20, Thoreau vislumbrou as consequências trágicas dessa transferência de responsabilidade moral do indivíduo para o Estado.

A primeira consequência é a atribuição de um poder abusivo a homens limitados e corrompíveis. A segunda é a transformação de uma sociedade de homens livres, moralmente livres, em uma organização de autômatos que se limitam a seguir ordens vindas de cima.


Quando escutamos as desculpas de Eichmann em Jerusalém, é impossível não lembrar as manhãs gloriosas de Thoreau.

O desejo de sermos deixados em paz é também o desejo de protegermos o nosso caráter.

Discórdias sobre o meu amigo? Várias. Não tenho da "civilização" a visão dantesca que ele cultiva. Digo mais: Thoreau só escreve como escreve porque ele é, acima de tudo, um homem civilizado.

Mas o essencial não mora aqui. Gosto de ler Thoreau nos momentos confusos, só para lembrar verdades límpidas como as águas do lago Walden.

A vida é minha. O tempo é escasso. As modas de hoje são gargalhadas futuras. Por vezes, a multidão que interessa é a multidão de um único homem. O poder político é necessário, mas não deixa de ser um mal necessário. E não assiste a nenhum político, a nenhum governo, a nenhum Estado, a condução da minha alma.

No bicentenário do nascimento, Thoreau simboliza a coragem da liberdade. Toda gente tem a palavra "liberdade" na boca. Mas raros são aqueles que possuem a coragem suficiente para a viver. Um adolescente? Engraçado. Não conheço autor mais exigente, mais indispensável –e mais adulto.

Ocupação da mesa do Senado é expressão do totalitarismo - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 12/07

Senadoras do PT e PCdoB tentaram impedir uma votação à força e mostraram do que é feito o modo totalitário de pensar



A ocupação da mesa diretora do Senado pelas senadoras Fátima Bezerra (PT-RN), Gleisi Hoffmann (PT-PR) e Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) nesta terça-feira (11) vai entrar para a história como um dos ataques mais constrangedores à democracia brasileira desde a redemocratização. Sentadas no lugar de quem deveria conduzir a sessão, as três parlamentares quiseram impor, à força, ideias que não conseguiriam vencer no voto.

O funcionamento de uma democracia exige respeito às instituições e, por consequência, às regras que as regem. É o respeito a essas regras que garante à sociedade que não haverá abuso no uso do poder concedido a qualquer um dos três poderes. As três senadoras, vendo frustrada sua vontade de alterar o projeto de lei da reforma trabalhista, pisaram fora dos limites impostos a seu trabalho parlamentar. A consequência que se espera agora é um processo no Conselho de Ética do Senado.

Elas, infelizmente, não estão sozinhas. Episódios como esse têm se tornado mais comuns em votações que incomodam alguns setores organizados da sociedade. Recentemente, em Curitiba, sindicatos de funcionários públicos invadiram a Câmara Municipal com o igual propósito de impedir uma votação. Não aceitaram que o assunto fosse resolvido pelos representantes eleitos.

Invasões, ameaças e tomadas de mesa estão no mesmo lado errado da história. O tempo da conquista do poder usando todos os meios foi enterrado pelas vantagens incomparáveis do debate democrático. Muita gente que chegou a Brasília pela via democrática, no entanto, parece não entender o risco implícito na negação do debate.

Disse a senadora Gleisi Hoffmann em um evento no último sábado no qual ameaçou tomar a cadeira do presidente do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE): “Às vezes a gente pensa que tem que ir para as vias de fato”. Como se viu nesta terça-feira, esta não era uma força de expressão, mas sim um chamado à ação. Levado ao limite, o argumento da senadora é o de que todo cidadão deve impor sua vontade pela força.

Até o momento, a tramitação da reforma trabalhista seguiu a normalidade no Congresso. O projeto foi apresentado pelo Executivo no fim do ano passado. Em uma negociação que envolveu deputados e o Palácio do Planalto, chegou-se ao texto atual, uma reforma ampla das leis trabalhistas que moderniza as normas sem retirar direitos, como insiste em dizer a oposição. Aprovada no plenário da Câmara, seguiu para o Senado, onde recebeu relatórios em três comissões – dois a favor e um contra. Em um acordo, os líderes da base do governo decidiram votar o texto como enviado pela Câmara e deixar possíveis alterações para um segundo momento, provavelmente por uma medida provisória.

O cálculo político feito pelas lideranças governistas faz parte da tramitação de qualquer projeto. Como as alterações pleiteadas no Senado são pontuais e não alteram substancialmente o texto, não há risco de uma diminuição do papel dos senadores nessa negociação. Seria provavelmente mais arriscado o país perder a chance de fazer o que parece ser a única reforma econômica viável neste momento de crise política – modificações nesta fase fariam o texto voltar para a Câmara, agora ocupada com a denúncia contra o presidente Michel Temer.

Nada impede que qualquer senador inconformado apresente depois um novo projeto de lei para alterar os pontos de discórdia, caso o governo não cumpra o compromisso de redigir uma medida provisória.

O voto deve ser sempre a saída para qualquer impasse ou inconformismo. Ao tomarem conta da mesa diretora do Senado, as senadoras do PT e do PCdoB querem dizer que há um caminho alternativo, no qual pode-se impor uma visão de mundo. Esse é invariavelmente o rumo do totalitarismo.

O exercício da omissão - EDITORIAL O ESTADÃO

ESTADÃO - 12/07

O relator Sérgio Zveiter utilizou as 31 páginas de seu parecer para afirmar, na CCJ, a indigente tese de que, se há uma denúncia, os deputados devem aceitá-la

Cumprindo as expectativas, o deputado Sérgio Zveiter (PMDB-RJ) apresentou na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara um parecer eminentemente político sobre a denúncia feita contra o presidente Michel Temer pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Sem corresponder às suas responsabilidades constitucionais, que lhe impunham a tarefa de analisar com seriedade o conteúdo da acusação feita pelo procurador-geral, o relator utilizou as 31 páginas de seu parecer para afirmar a indigente tese de que, se há uma denúncia, os deputados devem aceitá-la. Segundo Zveiter, o papel da Câmara é justamente não cumprir o papel que a Constituição lhe dá, portando-se tão somente como despachante da Procuradoria-Geral da República (PGR).

O relatório de Zveiter mencionou a existência de uma “narrativa forte”, com “sólidos indícios” contra o presidente Michel Temer. Mais do que convencer, tais palavras parecem destinadas a lançar uma cortina de fumaça sobre a acintosa fragilidade da peça acusatória. Janot acusou o presidente da República de receber vantagem indevida de R$ 500 mil, mas não apontou um único indício de que Temer teria recebido tal valor – onde, quando, como. Zveiter, no entanto, não enfrentou a questão, optando simplesmente por apoiar a admissibilidade da denúncia.

O relator teve ainda a ousadia de dizer que, atuando assim, se tinha “pleno funcionamento dos mecanismos que a Constituição Federal prevê para uma crise desta magnitude”. Ora, ao atribuir à Câmara o juízo de admissibilidade de uma denúncia contra o presidente da República, a Assembleia Constituinte de 1988 pretendeu assegurar que um presidente não seria afastado do cargo por uma denúncia inepta. Aos olhos do constituinte, esse é um assunto tão grave que não pode ser deixado a cargo apenas do Supremo Tribunal Federal.

Em vez de simplesmente reconhecer o dever que a Constituição lhe impunha, o deputado Zveiter preferiu inverter o ônus da prova e declarar a estranha teoria de que, em caso de dúvida num processo penal, deve valer a palavra da acusação. Ora, pretender afastar um presidente da República do cargo simplesmente por força da “narrativa forte” do procurador-geral da República, que não veio acompanhada dos necessários elementos probatórios, é uma perigosa arbitrariedade, que a Constituição pretendeu evitar justamente sujeitando a denúncia à apreciação da Câmara.

Cabe agora à CCJ, e, depois, ao plenário da Câmara, ter uma noção mais clara do seu papel constitucional. O inarredável caráter político do Congresso não pode levar à tese de que os deputados devem simplesmente anuir ao pedido do procurador-geral da República, como se eles não tivessem o dever de checar se os termos da acusação têm um mínimo de fundamento.

Para que a crise política não se transforme em campo aberto para a irresponsabilidade dos oportunistas de plantão, é necessário que as autoridades dos Três Poderes mantenham os pés no solo firme do bom Direito. O ordenamento jurídico deve ser o critério. Nesse sentido, são descabidas as críticas contra as trocas feitas pelos partidos da base aliada na composição da CCJ, para garantir votos favoráveis ao presidente Michel Temer. Esse tipo de condenação demonstra malicioso desconhecimento das regras parlamentares. Segundo o Regimento Interno da Câmara, cabe aos partidos designar os deputados que integrarão a comissão. É, portanto, legítimo que cada legenda assegure que os votos que lhe correspondem na CCJ estejam em conformidade com as diretrizes partidárias. Ao contrário do que alguns querem pintar, nada há de suspeito nesse tipo de articulação parlamentar. É um recurso comum e regular.

O que não é comum e regular é querer derrubar um presidente da República sem explicitar claramente a ação delituosa que teria sido cometida pelo governante. As pessoas que assim agem estão cegas de ódio e de paixão ideológica. Não veem que, se derrubarem o atual presidente, apenas transferirão a crise para o próximo que ocupar o Palácio do Planalto. E tanto pior para o País se essa pessoa for também objeto de um ou dois, talvez mais, processos da Lava Jato e operações afins. Cabe ao Congresso encontrar soluções sérias para a crise, não meios de eternizá-la.

Instituições insultadas - JOSÉ NÊUMANNE

O ESTADÃO - 12/07

Interesse pessoal leva poderosos a tentarem dificultar a atuação do Estado de Direito


A série de insultos às instituições republicanas culminou ontem com o sequestro da Mesa do Senado por uma horda de bandalheiras – as senadoras Fátima Bezerra (PT-RN) e Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM,) à frente – para impedir a votação da reforma trabalhista. Ao mandar apagar as luzes do plenário, o presidente da Casa, Eunício Oliveira (PMDB-CE), fez a metáfora típica de membro do baixo clero num cargo do qual não está à altura.

Essa submissão da coisa pública às mesquinhas ambições pessoais da baixa política teve início após o impeachment de Dilma Rousseff (PT-RS), quando seus sequazes percorrerem o Brasil e o mundo a denunciar o “gópi” (da lavra da acima citada Fátima Bezerra), garantindo que a democracia havia sido interrompida por uma intervenção ilegítima. Agora que o governo Temer se assemelha cada vez mais a um zumbi assombrando um Brasil espoliado e intranquilo, os mesmos pregoeiros da desgraça garantem que o eventual substituto provisório e, quem sabe, provável sucessor até 2018, Rodrigo Maia (DEM-RJ), estaria protagonizando o golpe do golpe. Mas as instituições parecem funcionar e Deus queira que as aparências não nos enganem.

O que não falta desde então, entretanto, são tentativas insidiosas de desmoralizá-las em proveito próprio. O Partido dos Trabalhadores (PT) foi o primeiro a entrar nesse cordão dos “arrasa-instituições”. Defenestrada em processo constitucional normalíssimo, a mineira dos Pampas não perde uma oportunidade de maldizer os Poderes Legislativo e Judiciário, que a depuseram para punir crimes de responsabilidade que ela cometeu, como as famigeradas “pedaladas fiscais”. Sua narrativa da deposição ilícita de uma “presidenta” honesta, sem contas no exterior, pelo vingativo e corrupto inimigo, o ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que presidia a Casa que a destituiu, com o voto de mais de dois terços do total dos seus membros, correu o mundo para macular o seu afastamento definitivo, satanizando o sistema que a deserdou.

Responsável por sua insensata e inesperada ascensão ao posto máximo da República, o antecessor e padrinho dela, Luiz Inácio Lula da Silva, recorreu a idêntico expediente ao tentar transferir para investigadores, acusadores e julgadores de seus crimes as penas que lhe cabem. Após constatar, em telefonema a um comparsa, que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, seria “ingrato”, incapaz de ser minimamente leal a benfeitores que o promoveram, abusa de ataques insanos ao Ministério Público (MP), à Polícia Federal (PF) e ao juiz federal Sergio Moro, responsáveis pelos cinco processos a que responde. E, dizendo-se vítima de ditadura inexistente, avisou que, se condenado, apelará a Cortes no exterior.

Na guerra de vaidades e por poder nem todos os chefes dessas instituições têm agido de forma incontestável no uso de suas atribuições. Rodrigo Janot, que se jacta de enfrentar, de forma imparcial e sobranceira, os mais poderosos varões nada impolutos da República, escorregou na baba da própria ambição. Em busca de um lugar no pódio da corrida do combate à corrupção, autorizou uma negociação nefasta para o interesse público com os marchantes da família Batista de Anápolis, propiciando-lhes impunidade absurda por sua participação numa ação programada de que a principal vítima foi o presidente da República. A obra-prima dele, a delação premiada de Joesley Batista, seu irmão e seus empregadinhos, resultou num desastre de relações públicas. A troca de 2 mil anos de pena por uma gravação do chefe do governo em flagrante delito empata em desconfiança e impopularidade com a desastrada atuação no comando do Executivo do mais poderoso de seus acusados. Comparar a troca com a “escolha de Sofia”, referência à opção entre dois filhos, salvando um em troca da morte do outro, da protagonista de William Styron, é a metáfora que sai pior do que a tentativa de correção.

A desastrada estratégia do tudo ou nada de Janot terminou por prejudicar muito mais a ação dos procuradores, incluindo os da força-tarefa da Operação Lava Jato, do que todas as tentativas de barrar suas iniciativas feitas pelos suspeitos de corrupção que ocupam cargos de mando na República. Sua sucessora, Raquel Dodge, terá uma missão árdua para corrigir isso, ao mesmo tempo que terá de esgarçar a teia de cumplicidade em que Temer e aliados pretendem enredá-la.

Impossível ainda será deixar o presidente de fora dessa tentativa malfazeja de desmoralizar as instituições da República para tentar safar-se dos próprios erros. Por mais inepta e frágil que seja a peça da acusação da lavra de Janot, que deu entrada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, ela tem como núcleo um fato incontestável: o encontro injustificável de Temer com Joesley na calada da noite, no porão do Jaburu, para tratar de assuntos pra lá de suspeitos e da forma mais inconveniente.

Desde que a reunião foi divulgada, a expectativa de delação de ex-parceiros, como o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e o contador Lúcio Funaro, desafia a reputação impecável alegada pelo morador do Jaburu. Nada disso, contudo, viria à baila se ele não tivesse permitido a constatação lógica de que pode ter cometido delitos de corrupção passiva, obstrução à investigação e formação de organização criminosa no único prazo em que não poderia tê-lo feito: os dois anos e meio em que completaria o mandato reduzido de Dilma Rousseff.

Sem fatos que possam socorrê-lo, o presidente contratou seu amigo fiel e conviva semanal Antônio Cláudio Mariz de Oliveira para enxovalhar a reputação da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e de um órgão técnico em cuja boa-fé repousam inquéritos criminais da maior relevância, o Instituto Nacional de Criminalística. Mas o Estado de Direito depende do funcionamento de instituições que a defesa de Temer tem enxovalhado para garantir o bom emprego dele.

*Jornalista, poeta e escritor

Fechado para a verdade - PAULO DELGADO

ESTADÃO - 12/07

O que está em questão é a decisão de incriminar previamente um presidente


Grupo contrarreformista atacou o presidente de nação do subcontinente e o mantém sob ameaça. Alto funcionário, que operou na chancelaria, ligado ao Ministério Público, que lidera a operação, desertou. Abrigou-se num aparelho advocatício para receber algo como um resgate pago a sequestrador. Mensagem de gravador descreve o método maldoso. Divulgada de forma reiterada, anestesia o país, como se alguém estivesse com uma arma na cabeça, obrigado a oferecer exigências ao malfeitor, não cumpridas integralmente pelo tribunal receptor da ação. A autoridade judicial que dá seriedade à trama não informou que o sogro da sua filha é chefe na organização acusada do mataboi, nome da operação de extermínio. A malta foi beneficiada por dois ex-presidentes com a desnacionalização do banco de fomento, através de empréstimos a compadre. Mesmo assim enviou a extravagante denúncia para servir ao esquartejamento do presidente no plenário da bacia maior. Com avidez de servir, fugindo de flechas de bambu, o relator parlamentar largou sua tribo e se entregou à do procurador
(Rádio Mariel, Baía dos Porcos).

O Brasil continua mergulhado na imundície da desavença entre Justiça e política. A rivalidade, mais forte do que a lei e a moral. A glória do deboche dos signos e valores da Justiça é afirmada pelo procurador-geral que denuncia com provas ruins, adora a perspectiva útil do caso grande e se comparar a carrasco de São Sebastião. Um jogo mais poderoso do que o mundo das pessoas de bem.

A energia do vício de acusar distorce fatos, perverte sentidos, libera a energia imoral do espetáculo em que cresce o gênio maléfico de simular. A razão insensata prefere a vitória da condenação política à justiça da condenação jurídica.

Ninharias, urtigas, intrigas dão ao ciúme entre instituições uma significação moral. O discernimento entre verdade e erro é impossível. Com a supercodificação ético-penal do carcereiro resta à sociedade o medonho consolo de apoiar.

A teatralidade da acusação fez a desordem dominar o fato e sua aparência. A dança macabra da honestidade-desonestidade usufrui o êxtase da transgressão à norma, um jogo de irresponsabilidade. Não é a déficit de socialização que estamos assistindo, é a socialização diferente e preocupante. A revolta que preparam é de quem nada sabe da enfermidade de ânimo que é o desprezo pela justiça.

Está em curso o crime absoluto, apressado, distante da justiça metódica. Misturado com a mediocridade da disputa política, vira linchamento. Alguém ameaçado é obrigado a fazer a confissão do outro. Cada um que apoia a denúncia a apoia como se estive sob a faca do pecado. A marca intimidadora que manda pensar daquele jeito lembra o caudilho, notório regional que enlaça e encadeia crime e benefício, elementos da desordem que domina.

Nem todos os procuradores usam o poder para sujar mais a política. Mas dentro dos que querem um motor gira sem controle, a moral, enfiada de ilegalismos que domina o Brasil nos últimos tempos.

A divulgação criminal em curso é a teoria da imitação e associação diferencial entre interessados. Uma interação do cometer erro e propagá-lo como acerto, conduta estudada que favorece a desobediência à lei. Não é bem o crime do investigado que está em questão, mas a decisão de incriminar previamente um presidente.

Um script aplicado nos anos 1990 contra o governo. Disse um bambambã da época: “Sob segredo de fonte a gente conta pro repórter o que a gente quer. Ele publica e a gente usa a matéria como prova e se o juiz resistir colocamos em cima dele a imprensa amiga. Nenhum juiz aguenta”. Agora é pior. Embrulhamos tudo junto. Bolero de Ravel, espiral que gira sobre políticos fracos e partidos invertebrados.

A lenta recuperação econômica, a necessidade de que privilegiados se enquadrem em normas previdenciárias mais justas; o apoio à lei que permita ao trabalhador liberdade para enriquecer sem intermediário; tudo isso levou a elite do setor público a arrancar o pino da granada. O ataque de guerra ao governo transitório revela a violenta prática das hierarquias não eletivas do Estado contra a autonomia da representação popular.

O cenário desaba todo dia. De manhã, depois de levantar, ônibus, quatro horas de trabalho, comer, quatro horas de trabalho, ônibus, sopa, sono. Agitado pelo som do jogo da autoridade formando time. O absurdo da vida do cidadão concentrou-se no Estado que obriga a sociedade a engolir a jubilosa autoridade brilhar, por nada, no circo da novela-crise-política

O despotismo jurídico reproduz o populismo na sociedade e seus interesses. E a despensa jurídico-político armazenada no Supremo não é diferente da formação econômico-social que os fez escolhidos.

O Supremo está congelado no tempo de quem compôs sua maioria. O que nos permite supor que as necessidades específicas que interessam ao poder, e fazem um ministro do Supremo, continuam vigorando depois que o governo acaba. Ou seja, o Supremo é hoje Poder reacionário, a principal forma como se manifesta a formação jurídica-ideológica-social-econômica do período popular-populista. Principal espaço de poder do tempo derrotado. E está intacto, como bússola quebrada, conspirando contra o futuro para salvar o passado.

Joesley, JBS são siglas indexadas. Testas de ferro do tempo velho onde o Ministério Público aceitou ser o código de barra. Grave é infiltrar-se no Supremo e impor sua saga: sem prova objetiva para sustentar a incriminação, ofereceu o perdão absoluto ao criminoso que esnobou a Corte com a armadilha que envenenou o presidente. Sem força para parar o erro, o tribunal gira seu relógio na direção do estado de absurdo que é usufruir o poder sem exercê-lo.

O Estado nos impôs seu presente, indiferente ao que vivemos. Não indica o lugar da razão. E o Parlamento liquidará de vez com a política se a cabeça do presidente for entregue na bandeja a autoridades embrulhadas em mistérios.

*Sociólogo.

LULA PRESIDENTE EM 2017? NÃO SUBESTIMEM O INIMIGO! - RODRIGO CONSTANTINO

RODRIGO CONSTANTINO
Que está tudo muito estranho e nebuloso na política nacional, essa é a única certeza que se pode ter no momento. Articulações pesadas ocorrem nos bastidores, envolvendo os políticos e grupos mais poderosos do país, enquanto nós ficamos mais perdidos do que cego em tiroteio, com o risco de fazer papel de otário e servir como idiota útil aos interesses obscuros dessa turma. Em especial ao do maior bandido da política brasileira: Lula, o responsável pelo caos em que estamos.

Carlos Andreazza comentou na Jovem Pan sobre isso hoje, afirmando sem rodeios que Lula é o grande culpado por tudo:

O jornalista e deputado Paulo Eduardo Martins também tem se mostrado apreensivo com a possibilidade de um golpe em curso, e comentou:

Temer cai. Assume Rodrigo Maia. Ele é obrigado a convocar eleição indireta.

Lula é candidato na eleição indireta. Então Lula sai em campanha pela Câmara. Ele encontra um deputado e usa sua força de persuasão.

Lula: Olá companheiro, lembra de quando eu era presidente e você me apoiava? Pois é. Eu consegui muita coisa pra você, né? Emenda, dinheiro pra campanha…

Deputado: é. Foi muita coisa.

Lula: pois é. Agora eu preciso me eleger pra não ser preso pelo Moro, aquele fdp. Então companheiro, se você não votar em mim, irei pra cadeia logo e aí, sabe como é, terei que te delatar. Você e os outros companheiros.

Deputado: vai delatar o que? Não há nada de errado comigo e nem com o meu grupo.

Lula: companheiro, se não há nada de errado com você e com seu grupo, você não precisa temer. Só vai ter que provar inocência depois de ser exposto em todos os jornais que darão destaque a tudo o que eu falar. Não importa se é verdade ou mentira. Eu sempre menti e eles nunca viram problema nisso. Ok? Conto com seu voto

Deputado: Lula lá.

Já disse e repito, não defendo Temer, mas esse exercício de consequência é necessário. Lula já disse que vai perseguir a todos quando voltar poder. Podemos estar diante não de uma questão de mera punição e justiça, mas sim se continuaremos a ser uma democracia ou passaremos para uma ditadura bolivariana com um Lula mais maduro. É meu sincero temor.

Em seguida, Paulo voltou ao assunto com mais reflexões, defendendo-se da acusação impensada de que sugerir a possibilidade de um golpe seja o mesmo que defender corruptos:

Pedi pela renúncia de Temer no dia em que vazaram os áudios da conversa com Joesley Friboi.

Nas últimas horas tenho confessado publicamente um temor pelas consequências da queda de Temer, que pode ser a volta de Lula, que fará do Brasil uma Venezuela.

É apenas uma reflexão, honesta, sincera de quem tem humildade para admitir dúvidas e fragilidades. Foi o que bastou para eu ser acusado de “proteger corrupto”.

Nada mais errado. Protege o corrupto quem criminaliza a reflexão. Tudo que um corrupto ou autoritário precisa é de um povo que raciocina por slogan. Reflita.

Bernardo Santoro, ex-presidente do Instituto Liberal, também fez uma análise cética e preocupante, que não descarta a volta de Lula ao poder pelas portas dos fundos, recomendando não subestimar o inimigo:

Avançando um pouco na teoria Lula Presidente 2017.

1 – Lula é o primeiro colocado nas pesquisas para presidente da república. Antes que você, meu leitor, venha com seus negacionismos, quero dizer que não interessa você não acreditar nas pesquisas. O que importa é que os congressistas, em geral, acreditam, e, portanto, essas pesquisas causariam impacto na eleição indireta.

2 – Ao longo dos últimos 15 anos, Lula fez muitos favores para muita gente. Ele foi um presidente que dialogou até mesmo com a oposição dele (FHC que o diga), e sempre foi muito generoso na liberação de emendas parlamentares.

3 – 95% da bancada nordestina foi eleita com ele ou por ele. Provavelmente apenas parlamentares nordestinos do PSDB e do DEM não votariam em Lula.

4 – Lula foi comparsa da maioria dos parlamentares, e principalmente dos líderes partidários. É inimaginável um cenário onde a maioria dos deputados do PP e do PR não votassem em Lula, sob pena de serem posteriormente delatados pelo Nove Dedos, em caso de prisão deste.

5 – Mesmo para aqueles parlamentares mais arredios, há sempre a possibilidade de chantagem por parte de Lula, inclusive fruto de investigações da Abin. Não custa lembrar, a agência de inteligência é aparelhada pelo PT e até hoje Temer tem dificuldades em preencher vagas do segundo e terceiro escalão porque a Abin não libera os processos de investigação social de propósito, para desgastar o presidente.

6 – Dinheiro para compra de parlamentares não falta a Lula.

7 – Lula está fazendo o jogo direitinho no que tange a voar sob o radar: está apoiando as eleições diretas com vigor, mesmo sabendo que essa é uma pauta irrealizável; com isso, se legitima a ser eleito por via indireta, afirmando que eivou todos os esforços em busca de uma “eleição democrática”.

8 – Certamente possui o apoio, ainda que velado, do Grupo Globo e Folha, dois dos maiores beneficiários do esquema de refinanciamentos, publicidade e isenções fiscais durante seu governo.

Não subestimem seu inimigo.

De tudo isso, só podemos manter mesmo o ceticismo e alertar: o “Fora Temer” pode muito bem ser o “Volta Lula”, até porque a cafajestada já preparou o “Fora Maia” para o segundo seguinte da queda eventual e cada vez mais provável de Temer. Todo cuidado é pouco!

Rodrigo Constantino

O BRASIL NÃO É PARA AMADORES: PT INVESTE EM NARRATIVA PODEROSA E ILUDE INOCENTES ÚTEIS - RODRIGO CONSTANTINO

RODRIGO CONSTANTINO
Há uma ala da “direita” que fechou com Rodrigo Janot, adotando um tom de purificação plena do “sistema corrompido” que mais parece coisa de jacobino. Ao lado do PSOL e do PT, essas pessoas indignadas com “tudo e todos que estão aí” passaram a gritar “Fora Temer”. Faz algum sentido: não temos bandidos favoritos. E Temer, nunca é demais lembrar, foi eleito pelos… petistas! Quem pariu Mateus que o embale, não é mesmo?

Só há um problema: a maldita narrativa. E tem gente que ainda não entendeu que, em política, é essa desgraçada que importa, mais do que fatos, mais do que lógica, mais até do que a economia. O PT, que de bobo não tem nada, preparou a narrativa desde o começo: sofreu um golpe pela mão de corruptos, e se jogou para a oposição no dia seguinte do impeachment de Dilma, talvez celebrado nos bastidores por Dirceu e Lula.

Temer se transformou, num passe de mágica, no ícone da direita (risos), o representante da elite golpista, dos banqueiros, da mídia, dos conservadores. Sim, ele que era vice de Dilma, que participou da gestão petista desde sempre. E Temer passou a ser a bola da vez, a encarnação do Mal, o responsável até mesmo pela desgraça causada pelo próprio PT.

Por pura necessidade de sobrevivência, seu governo apresentou algumas reformas tímidas, que encantam os mercados (afinal, se o PT continuasse no poder elas estariam descartadas). Mas Temer não tinha capital político para aguentar a pressão do “deep state”, e seu instinto de sobrevivência logo apontou para concessões, e mais concessões, até restar um arremedo de reforma, que protege o setor público e transfere o custo para os cidadãos trabalhadores.

Em meio a isso tudo, e com alguma reforma trabalhista e previdenciária ao menos no radar, vem Rodrigo Janot, com seu patriotismo despertado no exato momento da queda de Dilma. E numa espantosa delação extremamente premiada, numa armadilha tosca, o enfraquecido presidente tampão se deixa gravar em conservas nada republicanas com Joesley Batista, aquele que virou “campeão nacional” no governo do PT.

A situação de Temer fica mais delicada ainda, e entra em cena a Globo numa campanha sem precedentes para derrubá-lo, com o apoio entusiasmado dos Antagonistas. Poucas vozes alertam para o risco dessa estranha campanha, e uma delas é de Reinaldo Azevedo, que erra no tom, na forma histérica, mas não necessariamente no conteúdo. Só que uma gravação, vazada de forma criminosa, aumenta as suspeitas de que tudo isso é amor aos tucanos, postura partidária, e portanto o teor do alerta cai em descrédito.

Não deveria. Como não deveria ter sido ignorado o ministro Gilmar Mendes, em direto combate com Fachin e companhia. Mas foi. A sanha por “justiça” é total. O povo está indignado, saturado, cansado demais, e quer ver o circo pegar fogo. Quer ver todos esses políticos canalhas punidos, mesmo que seja preciso abusar um pouco das leis. Só há um problema: igualar todos é proteger os piores, ou seja, os petistas. Só há mais um problema: Lula, o chefe da quadrilha, o maior responsável pelo caos no país, foi também o mais protegido nessa inquisição implacável. Ninguém mais fala dele!

Agora só pedem a cabeça de Temer, transformado por Joesley em chefe da quadrilha mais perigosa (Lula agradece). E, à medida que o tempo passa, aqueles que achavam que o dono da JBS entregaria todos, inclusive Lula, começam a perceber que podem ter sido enganados. Tarde demais. O homem está livre, leve e solto, com seus bilhões em Nova York, intocável. E Lula também, pronto para ser candidato com a narrativa de que foi perseguido por bandidos. O Brasil não é para amadores.

Recomendo a coluna de Carlos Andreazza hoje. Fala dessa obra-prima de Janot. E mostra o dilema insuportável dos tucanos: como apoiar o governo Temer, tão fragilizado e alvo diário da pressão da Globo? Pular fora é tentador, como é para todos nós o grito “Fora Temer”. As reformas já subiram no telhado, as evidências de corrupção existem, e o homem foi colocado no poder por petistas. Mas essa narrativa não vingou, até porque o “lado de cá” não investe muito em narrativas: acredita que bastam as reformas.

Os agentes do mercado apostam só em tecnocratas: se a equipe econômica for mantida, então tudo bem trocar Temer por Rodrigo Maia. Falta entender a reação do povo, o mundo real daqueles revoltados e impacientes com tudo isso, e o jogo de xadrez dos petistas, claro. É o que alerta Andreazza:

Não se pode projetar a sucessão extemporânea de Temer senão como aposta arriscada, repito; mas é fácil casar fichas sobre o maior beneficiário do baguncismo: Lula. O vácuo institucional decorrente da sanha justiceira e da leitura política equivocada sobre o que está em curso no Brasil é tão provável quanto certo é que os petistas o preencherão com maestria. Na lama em que o patriota chefe do Ministério Público jogou o exercício da política, nivelando a roubalheira para enriquecimento pessoal à apropriação do Estado que caracteriza o projeto autoritário de poder petista, Lula não só disputará a próxima eleição presidencial, seja quando for, como já está no segundo turno.

É perigoso supor — com base na experiência recente — que a queda de um presidente significaria apaziguar a crise política, encaixar as reformas e recolocar a economia nos trilhos. Não estou aqui para educar Tasso Jereissati, mas não foi essa a consequência do impeachment de Dilma Rousseff. E a conjuntura piorou desde então — agora, ademais, com os petistas profissionalmente à vontade na oposição. Não se iluda, senador. O PT — Lula — já o derrubou uma vez. O plano, porém, era varrê-lo do mapa político-eleitoral. O senhor sobreviveu. Que vosso senso de responsabilidade para com a democracia advenha, pois, do recurso à memória combinado ao instinto de sobrevivência. Desenharei: a única chance de que o PSDB — partido de frouxos — seja competitivo em 2018 está em Temer concluir seu mandato; está em que haja eleições somente no ano que vem. É sob essa condição que Geraldo Alckmin será forte candidato.


Se o PSDB pular fora agora, tardiamente, não terá a menor condição de capturar a imagem de oposição, que já é do PT, mesmo que o PT tenha sido o sócio de Temer antes, e o responsável por sua chegada ao poder pela condição de vice-presidente de Dilma. Temer está lá pela mão de quem digitou 13 nas urnas. Não importa. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Apoiar Temer é complicado, abandoná-lo pode ser ainda pior. Que dilema!

O PT já sente o cheiro de sangue, e como todo abutre, regozija-se. Vive do caos, é nele que se sai bem. Rodrigo Maia foi eleito presidente da Câmara com o apoio de parte da extrema-esquerda, não custa lembrar. A turma do andar de cima acha que pode controlar os eventos políticos com essa facilidade toda, que poderá usar Maia como uma marionete? Melhor pensar duas vezes.

São tempos de muita confusão na política nacional, e a sensação de que podemos estar agindo como idiotas úteis de interesses obscuros é enorme. O que foi, por exemplo, a reunião de Maia e caciques do PMDB com um chefão da Globo, denunciada por Reinaldo Azevedo? Coincidência? Nada demais? Talvez. Talvez não. A única certeza é a de que o grupo quer muito a saída de Temer. O motivo não sabemos, mas a bandeira ética não parece muito convincente.

Perdidos nessa névoa de desinformação, podemos estar certos de uma coisa ao menos: a narrativa de que são todos iguais só interessa ao PT, que destruiu o Brasil, que tem um DNA totalitário, que tentava transformar o Brasil na Venezuela, que possui militância radical criminosa, que aparelhou quase toda a máquina estatal. Esse jogo eu não faço, e nunca fiz.

Por mais que eu tenha raiva dos tucanos pusilânimes e esquerdistas, por mais que eu tenha asco dos fisiológicos do PMDB, ainda tenho bom senso para saber que o PT é muito pior em todos os aspectos, e que articula um movimento golpista para retornar ao poder e retomar seu projeto totalitário. E barrar essa ameaça é a prioridade que temos no momento, pois é um risco fatal. Se o PT voltar, é “game over” para o Brasil.

Rodrigo Constantino

A obra-prima do doutor Janot - CARLOS ANDREAZZA

O Globo 11/07

O vácuo institucional decorrente da sanha justiceira e da leitura política equivocada sobre o que está em curso é tão provável quanto certo é que os petistas o preencherão


Suponhamos que Michel Temer caia. Um, dois, três: bum. Caiu. E então será o vazio. Ou melhor: o vácuo. Não. Não. Atenção. Não pela falta do estadista que ele jamais foi, por favor; mas porque ninguém — ninguém honesto intelectualmente — pode projetar a sucessão de Temer senão como aposta. E arriscada. Farei a minha. Eis o seu fundamento: ao estalar, bum!, no chão o traseiro presidencial, o já ralo compromisso parlamentar com o que estabelece a Constituição se liquefará imediatamente, e a defesa da eleição indireta — que é a defesa da Carta Magna — terá por guardiões apenas os dois ou três gilmar mendes já ceifados pela narrativa jacobina.

Não se pode projetar a sucessão extemporânea de Temer senão como aposta arriscada, repito; mas é fácil casar fichas sobre o maior beneficiário do baguncismo: Lula. O vácuo institucional decorrente da sanha justiceira e da leitura política equivocada sobre o que está em curso no Brasil é tão provável quanto certo é que os petistas o preencherão com maestria. Na lama em que o patriota chefe do Ministério Público jogou o exercício da política, nivelando a roubalheira para enriquecimento pessoal à apropriação do Estado que caracteriza o projeto autoritário de poder petista, Lula não só disputará a próxima eleição presidencial, seja quando for, como já está no segundo turno.

Voltemos, porém.

É perigoso supor — com base na experiência recente — que a queda de um presidente significaria apaziguar a crise política, encaixar as reformas e recolocar a economia nos trilhos. Não estou aqui para educar Tasso Jereissati, mas não foi essa a consequência do impeachment de Dilma Rousseff. E a conjuntura piorou desde então — agora, ademais, com os petistas profissionalmente à vontade na oposição. Não se iluda, senador. O PT — Lula — já o derrubou uma vez. O plano, porém, era varrê-lo do mapa político-eleitoral. O senhor sobreviveu. Que vosso senso de responsabilidade para com a democracia advenha, pois, do recurso à memória combinado ao instinto de sobrevivência. Desenharei: a única chance de que o PSDB — partido de frouxos — seja competitivo em 2018 está em Temer concluir seu mandato; está em que haja eleições somente no ano que vem. É sob essa condição que Geraldo Alckmin será forte candidato.

O PSDB teve, sim, algumas chances de desembarcar do governo e ainda sobreviver. Elas acabaram. Se pular fora agora e o presidente permanecer até o fim, isso terá ocorrido apesar da traição dos tucanos — e sabemos o lugar da deslealdade em política. Sabemos também que o PSDB terá abandonado o barco sem ter ferramentas para convencer como oposição. Esse lugar é do PT. Se o presidente cair, contudo, terá sido graças ao empurrão final dos tucanos — e sabemos o lugar da traição em política. Sabemos também que o PSDB terá derrubado Temer sem ter quaisquer meios de capitalizar eleitoralmente a queda. Esse capital será petista.

Voltemos, porém.

Eu dizia para Jereissati não se iludir. Tampouco, senador, iluda Rodrigo Maia, cuja eventual presidência já está, sim, precificada pelo mercado — mas apenas tanto quanto for possível pagar por uma cabeça de bolinha na bandeja. Não suponham, senhores parlamentares, que têm as rédeas da situação. A explicação grita: a ação da Lava-Jato se deturpou sob o ativismo judicial janotista, que a transformou em instrumento de ataque contra o establishment e de dilapidação da atividade política; mas não sem prestar o serviço ao projeto de poder petista em que consiste tratar todos os políticos criminosos como igualmente criminosos. Está aí — para exemplificar — a delação dos donos da J&F, gratíssima a quem a fez campeã nacional, premiadíssima por sua natureza ficcional.

Rodrigo Maia que não se deslumbre com a corte que ora lhe fazem os petistas. Ele está do lado daqueles condenados pela seletividade de Janot, e talvez seja hoje — ele, Maia — a mais perfeita representação do sistema. Primeiro na linha de sucessão e também investigado na Lava-Jato, que não se engane sobre suas chances de presidir o Brasil. É assumir e cair, derrubado pelas mãos que hoje lhe balançam o berço, triturado facilmente pela narrativa petista, varrido pelo golpe na Constituição e, portanto, pelo crescimento incontrolável — pela volta irreversível — da pressão por antecipação da eleição direta a presidente.

Em política, não se perdoa traição nem burrice. Chegamos ao momento de exceção em que políticos ainda não sentenciados pela Justiça — como Temer — encontram-se politicamente condenados pela institucionalização dos vazamentos seletivos e pela transformação de delação premiada em prova. Aproxima-se, no entanto, o momento, ápice da arte de Janot, em que políticos ainda não condenados pela Justiça — como Lula — ressuscitarão politicamente pela institucionalização dos vazamentos seletivos e pela transformação do conteúdo de delações premiadas em prova. É sutil.

Não importa se Lula terá como vencer em 2018. Importante é o fato de que será candidato. E, uma vez candidato, intocável. Todo o resto decorrerá daí.

Carlos Andreazza é editor de livros

Se Temer cair, as esquerdas terão uma absolvição moral e partirão com tudo para a disputa de 2018 - REINALDO AZEVEDO

REINALDO AZEVEDO

Não é uma questão de vontade, mas de fato: a forma como Janot e seus fanáticos conduziram a Lava Jato empurra o país para os braços das esquerdas; todo cuidado é pouco


Vamos a algumas constatações inevitáveis.

Caso o presidente Michel Temer caia, como prevê — e luta para que aconteça — Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara, as esquerdas terão uma absolvição muito mais importante do que a judicial: tratar-se-á, aos olhos de muitos brasileiros, de uma absolvição moral. O discurso já está em todo canto. Lula, Dilma, José Dirceu, Gleisi Hoffmann (a ré buliçosa) e caterva, com a colaboração dos esquerdistas da imprensa, sintetizam: as principais figuras que concorreram para o impeachment de Dilma eram, na verdade, os verdadeiros bandidos. Nessa versão, como sabemos, os mocinhos são os petistas.

Para isso nos arrastou Rodrigo Janot. Essa é a verdade que os fanáticos da Lava Jato ajudaram a consolidar. Sim, Reinaldo Azevedo — eu mesmo! — tinha razão, não é? Quando afirmei que a destruição da política a que nos conduziam esses valentes e o esforço para igualar os desiguais acabariam por ressuscitar o PT e as esquerdas, fui acusado de estar tentando proteger bandidos. Lembram-se disso?

Foram sete meses debaixo de porrada intensa! Mas as agressões vêm de mais tempo. A cada vez que apontava uma ilegalidade da operação, diziam-me “inimigo da Lava Jato e de Sérgio Moro”. E os ataques partiam de setores da direita, os mesmos que acabaram colaborando para ressuscitar o PT.

Dizia eu: “Não há nada de errado com o projeto que muda lei que pune abuso de autoridade”. E a malta de vigaristas gritava: “Você quer acabar com a Lava Jato!” Dizia eu: “É preciso distinguir, sim, o caixa dois com contrapartida (corrupção passiva) do caixa dois sem contrapartida”. E o coro dos canalhas berrava: “Você quer acabar com a Lava Jato!” Dizia eu: “Não podemos dar ao Ministério Público o prerrogativa de primeiro condenar para depois investigar”. E a súcia de pilantras fazia o coro: “Você quer acabar com a Lava Jato!”

Escrevi eu: “Se todos são iguais, então Lula é melhor!” E tive de aguentar ofensas de especuladores, bucaneiros e safados, que esperam lucrar os tubos com a eventual queda de Temer. E, por óbvio, meus caros, os pobres pagarão o pato. Quando, em fevereiro, eu me insurgi contra uma manifestação que se dizia “em favor da Lava Jato”, escrevi aqui: “A Lava Jato não está em risco; estão querendo transformar o governo Temer em alvo”. Eis aí.

Ora, é claro que acho que tudo tem de ser investigado. O que faço aqui — e o que tenho feito nos 11 anos de existência deste blog — é defender que as ações de combate à corrupção sigam os marcos do Estado de Direito. Fui alvo de piadas por isso. De achincalhe. Notórios falastrões, que defendem abertamente a impunidade para um bandido como Joesley Batista, acusaram-me de estar me alinhando com a impunidade. E, sim!, não tive receio, quando achei correto, de apontar as vezes em que o próprio Lula foi alvo de arbitrariedades. Apanhei mais um pouco por isso. Passei a ser assediado moralmente em um dos meus empregos.

A realidade está aí, aos olhos de todos.

Lula será eleito?
Eu não me atrevo a fazer previsões desse tipo. Esse não é o ponto. A minha tese central, desde o começo, é que a forma como a Lava Jato, com destaque para Janot, conduzia as coisas submetia o processo político a um deslocamento para a esquerda. E ele está aí, aos olhos de todos. A prova, diga-se, de que os esquerdistas estão no comando da guerrilha contra Temer, em parceria com a Globo (sei lá o que o grupo teme ), está no fato de que temos uma, como vou chamar?, “revolução sem povo”. Afinal, os vermelhos detêm os aparelhos políticos, mas não conseguem mobilizar a população.

“Ah, Reinaldo, mas será preciso do povo para dar votos às esquerdas”. Sim, é verdade! Depois do resultado pífio que elas obtiveram nas urnas em 2016, essa possibilidade seria hoje remota. Mas notem o que aconteceu de lá para cá. Lula passou, por incrível que pareça, por uma reabilitação, e as lideranças antipetistas foram fulminadas. Segundo a história contada hoje pelos ficcionistas Joesley e Janot, o maior criminoso do Brasil era Michel Temer, secundado por Aécio Neves. Como é notório, essa dupla mandava na Petrobras, no BNDES, nos fundos de pensão, nos Correios, na CEF, nas demais estatais, nos ministérios, nas grandes obras de infraestrutura…

É uma piada grotesca.

Certamente vamos encontrar erros cometidos pelas forças que se opunham ao PT, mas é evidente que o projeto político da Lava Jato é que determinou esse resultado.

Se Lula estiver no gozo de seus direitos políticos, é evidente que entra na disputa de 2018 como favorito. Mas ainda que assim não seja; ainda que ele decida ungir um nome — Ciro Gomes, por exemplo —, o risco é gigantesco. Já é hoje, dado o estado das artes. Tanto pior será se Temer for deposto. Aí, meus caros, ainda que petistas sejam condenados às pencas, a redenção moral estará dada.

“Ah, Reinaldo, e se Lula for preso? A Lava Jato recupera o eu prestígio?”

Tratarei disso em outro post. Eis aí um outro tema em que os vigaristas rolam felizes, mais do que porcos na lama.

Não tenho nada mais a lhes oferecer do que meus acertos e erros honestos.

Por que a imprensa se nega a noticiar que o “sim” à reforma trabalhista foi vitória de Temer? - REINALDO AZEVEDO

REINALDO AZEVEDO

Explico: porque parte dela está empenhada em derrubar o presidente, e um fato como esse contraria a sua convicçãop. Afinal, para certo jornalismo, “contra teses, não há argumentos


O presidente que muitos deram por acabado num dia obtém, no seguinte, expressiva vitória
Se o texto-base da reforma trabalhista tivesse sido rejeitado pelos senadores, vocês sabem qual seria o título, com pequenas variações, dos portais, sites, blogs noticiosos, programas jornalísticos de TV e rádio e dos jornais impressos desta quarta: “Governo Temer é derrotado, e Senado barra reforma trabalhista”. Alguém tem dúvida? Afinal, não foi isso o que se viu quando, por 10 votos a 9, a Comissão de Assuntos Sociais rejeitou a proposta? Nesta terça, no entanto, procurei as letras garrafais e não encontrei: “Governo Temer vence, e Senado aprova reforma trabalhista”. E olhem que, desta feita, estamos falando de triunfo na votação final, não numa comissão. Assim, 10 (52,63%) de 19 votos bastam para que se decrete a derrocada do governo. Mas 50 (65%) em 77 não são suficientes para que se enxergue uma vitória. A propósito: o texto teria sido aprovado se fosse uma emenda constitucional, que precisa de 60% do total de senadores.

Vamos lá. A aprovação da reforma trabalhista pelo Senado — 50 a 26 e 1 abstenção — dá o que pensar, não? Inclusive sobre a imprensa. A se dar crédito a certa militância disfarçada de jornalismo, o vitorioso desta tarde foi um peru, que, como se sabe, havia morrido na véspera. Ou não foi o funeral político de Michel Temer a que se assistiu no noticiário online de ontem, estampado nos jornais desta terça? Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara, já estaria nomeando e demitindo ministros. No auge das feitiçarias, lançou-se até a tese: “Sogro postiço não é parente”, a senha que serviria, dizia-se, para que o empossado pelo Grupo Globo mantivesse Moreira Franco no governo. O atual secretário-geral da Presidência é casado com a mãe da mulher de Maia.

E, no entanto, Temer está vivo. E o demonstra de vários modos. Sim, o governo decidiu reagir e conclamou, por exemplo, os líderes a substituírem membros da CCJ que lá estavam atuando como cavalos de troia dos adversários. O que eu acho? Fez muito bem! Defendi rigorosamente que assim se procedesse em post do dia 7 de julho. Escrevi então:

“Líderes da base aliada — realmente aliada — têm de se organizar e de promover a eventual substituição de membros da CCJ que estejam dispostos a flertar com as feitiçarias de Janot. É legítimo, regimental e legal. O que é ilegítimo, ilegal e inconstitucional é usar em juízo uma prova ilícita, por exemplo. O que é indecoroso e golpista é impor a um preso que delate o presidente em troca da liberdade. Ou ameaçar com a cadeia quem está libre se não atender a igual propósito.”

A imprensa esquerdizada chama isso de “manobra”, emprestando à palavra um viés negativo. Pois é… Então os governistas não deveriam usar os recursos legais de que dispõem para enfrentar os adversários, especialmente quando sabem que estes recorrem apelam até a métodos ilegais, a exemplo da patuscada estrelada por senadoras na tarde desta terça, que violaram as regras do jogo e do decoro ao ocupar a Mesa do Casa? Bem, essa mesma imprensa também tacha de “fisiologismo” o fato de um governo nomear seus auxiliares entre quadros da base aliada. Talvez devesse governar com os inimigos? “Por que não só com técnicos?””, pergunta quem tem nojinho da política. Respondo com outra pergunta, irônica: “Que tal fazer um vestibular para o governo nomear ministros e auxiliares? Tenham paciência!

Volto à reforma trabalhista. Como se sabe, o texto, que já passou pela Câmara, foi submetido a votação no Senado por maioria simples, já que decorre de um projeto de lei que começou a tramitar na outra Casa. Isso significa que, para que se pudesse proceder à votação, bastaria quórum de metade mais um dos senadores: 42. O texto precisava ter a maioria relativa no grupo: digamos que o “não” tivesse, nesse caso, obtido 14 votos, e as abstenções, 13: estaria aprovado por 15 votos.

Mas o governo obteve BEM mais do que isso, não é mesmo? Não havia apenas 42 senadores em plenário, mas 77. Houve apenas uma abstenção, e o texto base foi aprovado por 50 votos.

Tese falsa
Uma das teses falsas que ameaçam tomar corpo na imprensa, especialmente nos setores golpistas, é aquela que assegura que a permanência de Temer no poder teria agora o condão de ameaçar as reformas. O resultado demonstra justamente o contrário. Ou alguém enxerga um Rodrigo Maia capaz de conquistar um resultado como esse? Ouso dizer que o risco maior que o país correria seria justamente a paralisia. Afinal, Maia ascendeu à presidência com apoio de parte das esquerdas. Ele até pode almoçar com um vice-presidente da organização que quer depor o presidente, mas justiça se lhe faça: cumpriu todos os acordos que fez com a esquerda.

segunda-feira, julho 03, 2017

Deixar os pais na casa de repouso é um 'direito do cidadão' que quer ser feliz - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 03/07

Acho a autoajuda e o politicamente correto duas formas de mau-caratismo. Minha crítica máxima aos dois nasce da minha certeza (tenho poucas) de que o sofrimento é fonte inexorável do amadurecimento, coisa rara em épocas retardadas como a nossa. O projeto contemporâneo é chegar aos 60 anos com cabeça de 15. Logo, retardo mental como projeto de vida. Uma conquista contra a inteligência.

Um dos temas prediletos do mau-caratismo é a chamada "terceira idade". Um mercado, claro, devido à longevidade da espécie nos últimos anos. Já se tratou a velhice como "melhor idade" também. Uma ofensa à experiência humana real.

A longevidade estendida é um dos casos mais claros da famosa ambivalência descrita por Zygmunt Bauman (1925-2017). Um bem evidente por um lado, um drama humano gigantesco por outro, sem solução, como toda ambivalência que se preze. O mais sábio dos meus amigos costuma dizer que uma das versões do inferno no futuro será a impossibilidade de morrer. Você vai querer morrer e não conseguirá.

Sem fazer referência necessariamente a toda gama de pessoas que vegetam por aí em leitos aparelhados com tecnologia de "primeira linha" para a humanidade vegetativa, a longevidade puramente fisiológica, muitas vezes acompanhada pela perda de funções cognitivas essenciais, atormentará o humano daqui para a frente.

A maravilhosa peça "O Pai", de Florian Zeller, com direção de Léo Stefanini, cujo elenco é encabeçado por Fulvio Stefanini (brilhante como o pai da peça, vencedor do Prêmio Shell de melhor ator em 2016), em cartaz no teatro Fernando Torres, em São Paulo, é essencial para pensarmos o tema da longevidade para além do marketing da longevidade.

Este é caracterizado por um discurso, como (quase) sempre no marketing, de facilitação da realidade em nome de um otimismo besta.

O impacto dos avanços tecnológicos, científicos e médicos criaram uma sobrevida na espécie humana jamais imaginada. Vivemos mais, mas somos cada vez mais solitários. Muito metabolismo para uma alma cada vez mais dissociada de si mesma. A peça tem, entre outras qualidades, a capacidade de levar você para dentro dessa alma idosa longeva e solitária, graças ao texto, às interpretações e à direção.

A solidão é uma epidemia contemporânea, em meio ao maior surto de histeria já enfrentado pela humanidade. Solidão e histeria, juntas, formam uma mistura explosiva em termos epidemiológicos.

Os avanços sociais e políticos, passo a passo com os avanços técnicos citados acima, produzem uma sociabilidade cada vez mais egoísta —o egoísmo é a grande revolução moral moderna. As pessoas emancipadas tendem ao egoísmo como forma de autonomia.

Inteligentinhos não entendem isso muito bem porque são as maiores vítimas do marketing de comportamento que se pode imaginar. Emancipados pensam em si mesmos, antes de tudo, como consumidores do direito ao egoísmo.

Sempre soubemos que os idosos sofrem na mão dos filhos homens e de suas mulheres, que quase nunca suportam seus sogros, que insistem em ficar vivos. As filhas, que quase sempre suportaram o ônus da lida com os pais, agora se libertam e também querem vida própria (claro que existem exceções ao descrito acima, que filhos, filhas, genros e noras ofendidinhos não fiquem nervosos em demasia).

As filhas também têm o direito de cuidar de si mesmas, é evidente. Deixar os pais na casa de repouso é um "direito de todo cidadão" que quer ser feliz sem ter que viver cuidando de pais que nunca morrem. Por isso que o mercado gerontológico só cresce.

Além disso, a crescente queda na natalidade, que caracteriza os mesmos países de crescente população longeva, só tende a agravar o quadro. Baixa natalidade e alta longevidade são ambas frutos da mesma riqueza instalada na sociedade: alta tecnologia e direitos sociais são manifestações diretas dessa riqueza. Filhos únicos serão idosos longevos solitários, dependentes de serviços que ocupam o vazio deixado pelas famílias.

Qual a solução pra isso? Não há. Um mundo de velhos solitários é o futuro de um mundo de ricos autônomos e amedrontados.

quarta-feira, junho 28, 2017

CAPITÃO MESÓCLISE ATACA SENHOR GRAMPEADOR: “ILAÇÕES!” - RODRIGO CONSTANTINO

GAZETA DO POVO - PR

O presidente Michel Temer, mas que pode ser chamado também de Capitão Mesóclise, fez um duro pronunciamentohoje se defendendo das acusações “sem provas” de que tem sido alvo. Temer subiu o tom, repetiu diversas vezes a palavra “ilação”, e fez ele mesmo algumas ilações sobre o procurador que virou advogado de delator e ganhou milhões em poucos meses.

Temer usa a mesma tática de Lula, o que poderia dar um nó na cabeça dos petistas, se eles tivessem alguma consciência: onde estão as provas?! De fato, seu assessor receber uma mala de dinheiro numa armadilha não parece exatamente a marca do batom, ao menos nada parecido com o tríplex que “não é do Lula”, ou o sítio que “não é do Lula”.

Eis alguns trechos da fala do presidente, destacados pelos antagonistas (que têm feito o jogo da grande mídia e da extrema-esquerda ao pedir diariamente a cabeça de Temer, deixando de lado até a prisão de Lula, que seria “amanhã”:

“Estamos colocando o país nos trilhos e somos vítima dessa infâmia de natureza política.”

“Onde estão as provas concretas de recebimento desses valores? Inexistem.”

“Quem deveria estar na cadeia está solto para voar a Nova York ou a Pequim e voltar para inventar uma nova história.”

“Querem parar o Brasil e o Congresso.”

“O que há, na verdade, é um atentado contra o nosso país.”

“Minha disposição é continuar a trabalhar pelo Brasil para gerar crescimento e emprego, para continuar com as reformas fundamentais.”

“Não fugirei das batalhas nem da guerra que temos pela frente.”

“Minha disposição não diminuirá com ataques irresponsáveis.”

É a primeira vez na história da República que o Ministério Público Federal acusa um presidente no exercício do cargo pela prática de crime comum. Ineditismo espantoso, ainda mais quando lembramos que Lula e Dilma passaram recentemente pelo mesmo cargo. Por que tanta celeridade na hora de produzir denúncias – três! – contra Temer, se nada parecido se viu quando petistas ocupavam a presidência?

Essa pergunta precisa ser feita, repetida de forma incansável, pois sua resposta é fundamental para entender a política nacional. Por que o espírito republicano e a grande produtividade de Janot só apareceram após o impeachment de Dilma? Temer é um santo? Não, mas quem diz o contrário? As provas contra ele são tão demolidoras assim quanto Janot dá a entender em suas denúncias apressadas? Também não. Ao menos não se comparado ao que se tem contra alguns petistas ainda soltos.

O viés está escancarado. E as suspeitas saltam aos olhos. Justo no momento das reformas necessárias, que incomodam o “deep state”, surge uma gravação de Joesley, cria de Lula, num encontro claramente armado para esse intuito, enquanto o acordo concede total liberdade ao delator, que sequer será denunciado? E Temer se transforma em chefe de quadrilha, enquanto Lula segue solto por aí? E o procurador-geral, na véspera de sua saída do cargo, produz diversas denúncias em tempo tão curto assim?

Não é necessário achar que Temer é honesto para estranhar isso tudo, e para manter, no mínimo, a cautela, para não bancar o idiota útil de forças poderosas com interesses muito obscuros. Acho que o Capitão Mesóclise fez bem de ir para cima da turma, e tudo indica que os planos mirabolantes de derrubá-lo serão frustrados. Os antagonistas terão de experimentar ares marinhos para afogar as mágoas. Não foi dessa vez que os jacobinos conseguiram impor sua agenda, mesmo com todo o poder da grande mídia…

Eu quero ver Temer, eleito pelos petistas, fora do poder também, mas faltam poucos meses para isso, dentro da normalidade institucional e com eleições previstas para o ano que vem. Mas ANTES disso, eu quero mesmo é ver Lula preso. E Joesley Batista também, mas esse já experimentou o gostinho da impunidade brasileira, graças a Rodrigo Janot, não é mesmo?

Rodrigo Constantino

A denúncia contra o presidente - EDITORIAL ESTADÃO

ESTADÃO - 28/06

A denúncia do procurador-geral Rodrigo Janot contra o presidente Michel Temer é inepta. O Supremo Tribunal Federal faria bem se mandasse arquivá-la


O resultado do generoso prêmio dado ao empresário Joesley Batista por sua delação envolvendo o presidente Michel Temer é uma denúncia inepta. Finalmente apresentada pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, na segunda-feira passada, para basear pesadas acusações de corrupção contra o presidente, a peça não acrescenta nada ao que já havia sido tornado público com o vazamento da delação de Joesley. Ou seja, a denúncia de Janot contra Temer é baseada somente na palavra do delator e em diálogos que deveriam ser interpretados com bem menos ligeireza, não só porque estão entrecortados, tornando-se incompreensíveis em vários momentos, mas principalmente porque foram captados pelo empresário com a intenção evidente de comprometer o presidente, sabe-se lá por que obscuras razões.

Por esses motivos, o Supremo Tribunal Federal faria bem se mandasse arquivar a denúncia, pois é claro que não se pode tratar de um processo criminal contra um presidente da República – que implicaria seu afastamento do cargo – sem que haja sólidas evidências a ampará-lo. E tudo o que se pode dizer, da leitura das pouco mais de 60 páginas da denúncia do procurador-geral, é que as acusações evidentemente carecem de base.

A denúncia se baseia principalmente na acusação de que o presidente Temer ganhou de Joesley Batista “vantagem indevida de R$ 500 mil”, por intermédio do ex-deputado Rodrigo Rocha Loures – que foi flagrado em vídeo recebendo a quantia em uma mala. Para a Procuradoria-Geral, o simples fato de que Rocha Loures era próximo de Temer – o presidente citou o nome do ex-deputado no diálogo com Joesley – foi suficiente para inferir que o dinheiro não era para Rocha Loures, e sim para o presidente.

Esses R$ 500 mil seriam parte de uma estupenda mesada que Joesley teria aceitado pagar em troca de uma intervenção do presidente Temer, por meio de Rocha Loures, no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) em favor de sua empresa, a JBS. No entanto, a própria denúncia admite que, “no exíguo prazo deste inquérito, não foi possível reunir elementos que permitam concluir que o interesse manifestado por Rodrigo Rocha Loures (no Cade) tenha provocado, no seio daquele órgão, ações ou decisões precipitadas ou desviadas da boa técnica”.

Essas incertezas se multiplicam em outros pontos da denúncia. A respeito do suposto pagamento de propina para comprar o “silêncio” do deputado cassado Eduardo Cunha, que Temer teria avalizado, segundo interpretou a Procuradoria-Geral a partir de um famoso trecho da conversa grampeada por Joesley – “tem que manter isso aí” –, a denúncia admite que ainda é preciso “uma análise mais cuidadosa, aprofundada e responsável” dos elementos disponíveis.

Por fim, a denúncia cita um suposto esquema em que o presidente Temer teria favorecido uma empresa da área portuária por meio de um decreto. Mesmo nesse caso, porém, o procurador-geral Rodrigo Janot admite ainda que é preciso instaurar “investigação específica” para “melhor elucidar os fatos”.

Logo, todos os pilares sobre os quais se sustenta a denúncia não permitem nenhuma conclusão, muito menos uma que seja sólida o suficiente para tirar o presidente da República de seu cargo, ao custo de enorme instabilidade para o País. Mas isso não impediu Rodrigo Janot de encerrar sua peça dizendo que “não há dúvida” de que Michel Temer cometeu “práticas espúrias” e que o presidente “ludibriou os cidadãos brasileiros”, causando “abalo moral à coletividade”.

A única coisa sobre a qual não resta dúvida é que a denúncia de Rodrigo Janot contra Michel Temer, de tão rasa, só serve a interesses políticos, e não jurídicos. Tanto é assim que o procurador-geral prepara uma série de novas denúncias, a serem apresentadas a conta-gotas, mantendo o presidente sob permanente ameaça. Não se pode reprovar quem veja nisso uma tentativa de inviabilizar de vez um governo já bastante acossado.

Diante disso, cabe ao presidente Michel Temer lutar para reunir maioria no Congresso não apenas para rejeitar a denúncia, mas para seguir adiante com as reformas. O País não pode continuar refém de irresponsabilidades.

quarta-feira, junho 21, 2017

JANOT, O HOMEM MAIS PODEROSO (E PERIGOSO) DO BRASIL - RODRIGO CONSTANTINO

GAZETA DO POVO - PR - 20/06

Uma ala da direita preferiu fingir que Rodrigo Janot não dava todos os sinais de parcialidade em sua cruzada contra a corrupção só para poder atacar “todos que estão aí”, o sistema como um todo, sem distinções. E a bola da vez era Temer com seu PMDB e o apoio do PSDB.

É compreensível a revolta contra todos os principais partidos, todos eles de esquerda, diga-se, ainda que seja cegueira ou burrice não perceber que o PT é mil vezes pior, por não ser “apenas” corrupto, e sim totalitário e bolchevique. Saber quem atacar primeiro não é ter bandido preferido; é questão de prioridade.

Mas, no afã de posar de purista jacobino contra todas as forças do mal, eis que uma turma à direita fechou os olhos e “casou” com Janot. Com Janot! O mesmo que hibernou em cima dos processos contra os petistas graúdos. Fazer pacto com o diabo pensando no curto prazo é sempre muito perigoso.

Carlos Andreazza, em corajoso artigo, mostra como esse apoio a Janot serve apenas aos interesses dos próprios petistas. Não dá para ser inocente útil da extrema-esquerda, que já deu todas as provas de jogar sujo, de não medir esforços e não ter escrúpulo algum em sua busca pelo poder. Diz Andreazza, expondo o duplo padrão do procurador-geral da República:

Note o leitor que, na investida de Janot, muito mais que um movimento contra Aécio Neves, vai explícita a criminalização da atividade política. É da ordem da barbárie difundir uma reunião entre políticos como conspiração contra a democracia. Mas essa generalização — que a todos iguala por baixo — serve a um projeto. A reabilitação do PT, especificamente a de Lula, só está em curso porque se enterrou a política na lama.

Escolhido por Dilma Rousseff e reconduzido ao cargo por ela, Janot é hoje — mérito consequente de muita determinação — o homem mais poderoso do Brasil, trabalhador incansável por fazer justiça, guerreiro cujo entusiasmo por acusar poderosos é outro desde que o PT saiu do Planalto.

Está aí um patriota a quem o impeachment liberou.

Senhor da agenda que pauta — e paralisa — a vida pública no país, há semanas tem o presidente sob a ameaça de uma denúncia ao Supremo, com cujo ritmo brinca como se fosse João Gilberto com o tempo de uma canção. Nesse período, diariamente, vaza-se à imprensa que talvez a cousa seja formalizada amanhã, mas que, bem, pode ser na semana que vem. Depende. Depende — digo eu — do momento. Do momento político. De um em que Michel Temer se encontre vulnerável.


Andreazza chama a atenção para o arbítrio do procurador-geral, do uso seletivo de seus poderes, do uso abusivo de seus poderes, resumindo ser ele hoje “a única autoridade que faz o que quer neste país”. E como a alvo é Temer ou Aécio, que ninguém quer defender, que não contarão jamais com um exército paralelo para gritar nas ruas “heróis do povo brasileiro”, como fazem os petistas com seus bandidos, então a turma faz vista grossa aos abusos.

Mas isso é extremamente perigoso. Afinal, se o arbítrio é tolerado hoje, ele poderá ser usado amanhã também. “Até o dia em que esses métodos se voltarem contra um dos nossos. Aí, será o quê? Estado policial?”, pergunta o autor. Andreazza conclui lembrando das possíveis intenções políticas de Janot:

Não sem aviso, chegamos ao momento em que um tipo como Joesley Batista diz que Temer é líder da “maior e mais perigosa organização criminosa deste país” — e fica tudo por isso mesmo. Ai, ai…

Os desconfiados — teóricos da conspiração — atrapalham o Brasil. Essa é a verdade.

Dificilmente, contudo, atrapalharão o movimento orgânico dos que militam para que Janot se candidate a senador em 2018, pelo Estado de Minas Gerais, na vaga a ser aberta por Aécio Neves. Mas pode ser a governador. Será pelo PT? Ou disfarçaremos numa linha auxiliar? Rede?


Ninguém, repito, quer defender Temer, até porque sua figura inspira poucas paixões e nenhuma credibilidade. Mas as reformas que ele liderava são fundamentais, e afetam diretamente o establishment político, o “deep state”, aquele que gosta de casar com o PT, defensor das mamatas e privilégios. E as reformas subiram no telhado. A quem isso interessa?

E a narrativa também misturou tudo e todos, como se o PT fosse igual ao PMDB e ao PSDB, e não uma máfia socialista disfarçada de partido, que defende ditaduras e criminosos abertamente. Novamente: a quem isso interessa?

Não podemos ser tão ingênuos assim. O Brasil não é para amadores. A “direita” que se vestiu de janotista está dando bobeira. Confiar na dupla Joesley Batista e Rodrigo Janot para executar a limpeza ética na política nacional é piada de mau gosto. E, enquanto isso, por onde anda Lula, de quem ninguém mais fala na imprensa?

Rodrigo Constantino

terça-feira, junho 20, 2017

O liberalismo moderno se transformou numa nova inquisição - JOÃO PEREIRA COUTINHO

FOLHA DE SP - 20/06

Será que um cristão pode fazer política? Não falo de um fundamentalista que pretende aplicar os preceitos bíblicos a toda a sociedade. Falo de um cristão "moderado", que sabe distinguir os princípios morais que regem a sua vida e os valores seculares que regem a vida da comunidade.

Falo, enfim, de um cristão que conhece o preceito bíblico de dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César –uma distinção crucial para a emergência do liberalismo e, claro, inexistente no Islã. Haverá lugar para essa criatura?

Maquiavel tratou da questão com brutalidade: não, não há. Para recuperar a influente interpretação de Isaiah Berlin sobre o florentino, o cristianismo é uma religião estimável, até admirável. Mas funciona apenas para os assuntos privados.

Na esfera pública, exige-se ao príncipe certas virtudes que obviamente colidem com a mensagem bíblica. Virtudes "pagãs", digamos assim, embora eu sempre tenha duvidado dessa conclusão de Berlin. Lemos Maquiavel e só por piada as "virtudes pagãs" dos seus tratados poderiam ser partilhadas por Cícero. As "virtudes" de Maquiavel são um capítulo novo na história da política e não uma nostalgia clássica. Mas divago.

Ou não divago. Porque a pergunta inicial aflorou nos últimos dias com a demissão de Tim Farron, o líder dos Liberais Democratas no Reino Unido.

Já tudo foi escrito sobre as eleições britânicas. O colapso dos conservadores, a espantosa ressurreição dos trabalhistas. Mas que dizer do destino de Tim Farron?

Leio no "Wall Street Journal" um artigo de Sohrab Ahmari que relata esse destino. Tim Farron, cristão evangélico, tem visões conservadoras sobre certos temas sociais. Como a homossexualidade. Como o aborto. Comecemos pelo primeiro. Será a homossexualidade um pecado?

A pergunta foi feita em 2015 e Tim Farron respondeu: "Todos somos pecadores". Não foi suficiente uma tal exibição de humildade. Durante a campanha, o fantasma regressou e Farron tentou enterrá-lo. Não, a homossexualidade não é um pecado, disse ele.

Também não foi suficiente. Se a homossexualidade não era um pecado, por que motivo Tim Farron demorou tanto tempo a reconhecê-lo?

Sem falar do aborto. Em 2007, parece que o "Guardian" encontrou uma frase de Farron na qual ele declarava que "o aborto é errado". Essa espantosa declaração, nunca antes vista na história da humanidade, provocou a tempestade respectiva.

Pergunta: as opiniões de Farron estão certas ou erradas?

Um fanático formula essa pergunta. Mas ela não faz sentido do ponto de visto político. A pergunta certa é saber se os valores religiosos de Tim Farron se sobrepõem aos consensos democraticamente estabelecidos no Reino Unido.

O próprio Farron foi claro: voltar a proibir o aborto seria um plano "impraticável". E abolir o "casamento gay" não estava na agenda.

Nada feito. Como escreve Sohrab Ahmari, não era suficiente que o aborto ou o casamento gay estivessem liberados. Tim Farron deveria aplaudir ambas as leis, prescindindo das suas convicções mais íntimas. Foi o fim de uma carreira.

Eis a suprema perversão do liberalismo moderno. Tempos houve em que a proposta liberal procurava separar a política da religião. Não cabe ao Estado legislar sobre a alma dos homens, escrevia John Locke. Em matérias de consciência, o indivíduo é soberano. De igual forma, não cabe à alma dos homens determinar os destinos da "polis".

Hoje, o caso de Tim Farron apenas mostra como o liberalismo moderno se transformou numa forma de religião. E de inquisição: quem discorda da cartilha é um herege que merece a fogueira das vaidades progressistas. A política não é uma arena de consensos entre visões distintas do bem comum. É um tribunal onde os pecadores devem confessar os seus crimes (de joelhos) e abraçar a Verdade (com maiúscula).

O problema desta visão medieval das coisas não está apenas na "intolerância" que ela revela. Muito menos na quantidade de "homens vazios" que ela promove: criaturas destituídas de qualquer vida interior, que debitam como se fossem robôs o "software" da moda.

O problema é mais vasto: aqueles que destroem a consciência individual em nome do "bem coletivo" estão a destruir a última barreira contra o poder arbitrário. Uma barreira de que eles podem precisar um dia se o pêndulo do fanatismo mudar de direção.


Fera ferida, Janot ataca. É o cara que ressuscitou o PT e concedeu a liberdade a Joesley - REINALDO AZEVEDO

REINALDO AZEVEDO - REDE TV/UOL

Janot está perdendo o juízo e o senso de ridículo. Apostou alto na sua recondução ao cargo. Se a Blitzkrieg tivesse dado certo, ele se imporia como solução de continuidade e “estabilidade” ao próximo mandatário. Mas deu errado.



É, meus caros, é quando as feras estão feridas que elas são mais perigosas. É o caso de Rodrigo Janot. Não dá para associá-lo a um leopardo ou a algum outro felino. Mas a natureza esconde feras às vezes insuspeitadas. Poucos sabem, mas o maior assassino de humanos na natureza é o hipopótamo. Tem aquele ar aparentemente abestado, inofensivo quase. Mas quê… Quando abre aquela bocarra, expõe presas destruidoras.

“Está comparando o procurador-geral da República com um hipopótamo, Reinaldo?” Não! Mas ferido ele está, inclusive na sua vaidade. E agora decidiu nos tratar a todos como jumentos ou como ruminantes. Aquele que tem a obrigação funcional e moral da ponderação — afinal, o órgão que comanda detém o poder da investigação (até hoje, arrancado no berro, sem previsão constitucional) e da denúncia. Não, eu não o comparo com um hipopótamo, mas é fato que sua mordida é poderosa. Especialmente num momento em que políticos se acovardam e em que setores da imprensa decidem endossar métodos típicos de Estado policial.

O doutor decidiu agora, como naquela música de Fábio Junior, dividir o mundo em duas metades da laranja. Mas, à diferença das “duas forças que se atraem” e do “sonho lindo de viver”, o que se tem, na mente de Janot, são forças antagônicas, que se repelem: na sua cabeça, há “os inimigos da Lava Jato” e os “amigos”. Os segundos endossam tudo o que fazem o procurador-geral e seus menudos de faces rosadas e ternos escuros; os primeiros, bem…, o doutor não reconhece matizes: seriam todos sócios da lambança.

Na abertura, nesta segunda, de um seminário no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), em Brasília, o procurador-geral mostrou as presas. Disse:


“Basta de hipocrisia! Não há mais espaço para a apatia. Ou caminhamos juntos contra essa vilania que abastarda a política ou estaremos condenados a uma eterna cidadania de segunda classe, servil e impotente contra aqueles que deveriam nos representar com lealdade”!


É discurso de político, não de procurador-geral. E digo mais: esse sotaque é tipicamente fascistoide. E serve a fascistas de esquerda ou de direita. Sempre que alguém vem com esse papo de “chega de hipocrisia!”, podem acreditar: está querendo endosso a algum ato truculento ou está fazendo tabula rasa de diferenças relevantes. Aliás, lá vamos nós para o extremo da abjeção, mas é preciso que se diga. Os nazistas costumavam pedir o “fim da hipocrisia” ao perseguir judeus. Afinal, eram ou não eram os “banqueiros da bancarrota” da República de Weimar? Integravam ou não o establishment de algumas das instituições mais importantes da Alemanha falida? Então, chega de hipocrisia e Holocausto para eles! “Está comparando Janot com um nazista, Reinaldo?” Não! Estou cobrando que ele não discurse como se fosse um.

Igualmente políticas tem sido as falas de todos os procuradores. Para o procurador-geral, hipócritas são todos os seus críticos e todos aqueles que não adotam a sua agenda e os seus métodos. E esses tais hipócritas, por sua vez, se dividiriam em dois grupos. Disse ele:


“Há pessoas que acusam o Ministério Público e a Lava Jato de abuso. Afirmam que o Brasil está se tornando um Estado policial de exceção. Só dois tipos de pessoas adotam e acolhem esse discurso. Os primeiros nunca viveram em uma ditadura. Eu vivi. Não conhecem, por experiência própria, o que representa uma vida sem liberdade; militam, portanto, na ignorância”. Já os outros, segundo disse, são “os que não têm compromisso verdadeiro com o país. A real preocupação dessas pessoas é com a casta privilegiada da qual fazem parte”.

Então vamos tirar o procurador-geral para uma contradança argumentativa. O homem que deu passe livre e carimbou um “nada consta” na biografia de Joesley Batista vem falar de pessoas que seriam críticas da Lava Jato porque comporiam uma casta privilegiada? Com a devida vênia, doutor, lave essa bocarra! O senhor não tem moral para posar de verdugo dos poderosos. Não quando a gente olha a pena que pegaram alguns dos maiores criminosos do país Aliás, não precisamos de verdugos. Queremos pessoas públicas que honrem as leis da democracia e do Estado de Direito.

Em segundo lugar, que papo é esse de herói contra a ditadura? O senhor??? Eu, que sou cinco anos MENOS VELHO do que a excelência com vocação para santidade e que efetivamente combati a ditadura; que tive problema “com uzômi” aos 16 anos; que levei porrada da polícia, bem, eu não me lembro de nenhum paladino da justiça chamado Rodrigo Janot. Combateu a ditadura com quem? Em que lugar? Na companhia de quais pessoas? Participou de quais eventos importantes da luta pela restauração da democracia?

Janot está perdendo o juízo e o senso de ridículo. Apostou alto na sua recondução ao cargo. Se a Blitzkrieg tivesse dado certo, ele se imporia como solução de continuidade e “estabilidade” ao próximo mandatário. Mas deu errado. Agora, o que ele quer é alimentar teorias conspiratórias na esperança de emplacar a candidatura de Nicolao Dino, o único que aceitou uma semiadoção, que vai disputar a eleição para a lista tríplice da ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República). O presidente da República não é obrigado a indicar nenhum dos três.

Janot vai deixar a PGR, e a luta contra a corrupção vai continuar. E que se torne mais forte do que antes. E ela será tanto mais eficaz quanto mais respeitar a lei.

O homem que garantiu a Joesley a vida de um cidadão de bem não tem nada a cobrar de ninguém.

De resto, lembro dois críticos dos desmandos — e não das virtudes — do MPF: Reinaldo Azevedo e o ministro Gilmar Mendes. O primeiro viu uma conversa com uma fonte ser covardemente usada na guerra política. O tiro saiu pela culatra. O outro, ora vejam, é acusado de crime de responsabilidade por aliados de Janot. Dará errado também.

O fim melancólico de Janot é a derrota de quem, contando com todas as faculdades do Estado de Direito para fazer a coisa certa, preferiu, por excesso de ambição, recorrer a instrumentos do arbítrio para fazer a coisa errada.

Um Joesley impune é a sua obra-prima, junto com o PT ressuscitado.

Infelizmente, embalada por picaretas, mistificadores e especuladores, parte dos conservadores, da direita, do pensamento antipetista colaborou para essa patuscada.

Vamos ver como saímos agora do enrosco.


O que o sr. Joesley não disse - EDITORIAL ESTADÃO

ESTADÃO - 20/06

O Brasil quer saber por que o empresário preservou os reais parceiros de sua trajetória de pilhagens, os verdadeiros contatos de seu submundo


Nada de novo apresentou o senhor Joesley Batista em sua rumorosa entrevista à revista Época, na qual o dono da JBS se disse vítima de políticos corruptos. A mesma estratégia foi tentada por outros empresários implicados nos sucessivos escândalos que, desde a infausta era lulopetista, infortunam o Brasil. Digno de nota, contudo, foi o esforço do senhor Joesley Batista para livrar o ex-presidente Lula da Silva de qualquer responsabilidade direta pelo surto de corrupção. O empresário, cuja trajetória de sucesso está ligada a generosos benefícios estatais obtidos durante os governos petistas, limitou-se a atribuir a Lula e ao PT, genericamente, a “institucionalização da corrupção” no País, mas assegurou, pasme o leitor, que nunca teve alguma “conversa não republicana” com o chefão petista, a quem, segundo deu a entender, mal conhecia. Em compensação, o presidente Michel Temer, este sim, é o chefe “da maior e mais perigosa organização criminosa deste país”.

Manda o bom senso que se procure compreender o contexto em que os acontecimentos se dão, antes de lhes atribuir ares de fato verídico. No caso de Joesley Batista, desde sempre está claro que a palavra deste senhor deve ser recebida com muitas reservas, pois não são poucos os interesses em jogo – os dele próprio e os daqueles que o patrocinaram durante os governos petistas.

A entrevista aparece no momento em que se questionam os termos de sua delação premiada à Procuradoria-Geral da República. Como se sabe, o empresário não passará um único dia na cadeia depois de ter gravado clandestinamente uma conversa com Michel Temer, na qual o presidente, na interpretação do Ministério Público, teria se confessado corrupto. Ao reafirmar suas acusações a Temer, nos termos mais duros, Joesley Batista parece mais interessado em justificar o generoso perdão que recebeu do procurador-geral da República, Rodrigo Janot – embora tenha, ele próprio, confessado centenas de crimes, que, em circunstâncias normais, lhe renderiam uma longa temporada na cadeia.

Na entrevista, o senhor Joesley Batista não se limitou a acusar Michel Temer. Sua intenção era demonstrar que “o problema (da corrupção) é estrutural, é pluripartidário”. Por essa razão, o empresário resolveu grampear o senador Aécio Neves, a quem ele chama de “número 2”, sendo que o “número 1” é Temer. Joesley Batista disse que precisava “fazer uma ação indiscutível para o entendimento da população e do Ministério Público”, isto é, armar um flagrante contra Aécio. O empresário, é claro, disse que sua missão era esclarecer que todos os políticos com os quais lidou são igualmente corruptos: “Se o Brasil não entendesse que o 2 era igual ao 1, o Brasil ia achar que a solução era substituir 1 por 2. Mas o 2 é do mesmo sistema”. Talvez o senhor Joesley Batista acredite que o País, em vez de questionar suas intenções, tenha de lhe ser grato.

Ao mesmo tempo, o senhor Joesley Batista espera que todos acreditem quando ele diz que teve contatos apenas esparsos com Lula da Silva e que só conversou sobre o pagamento de propinas para o PT com o então ministro da Fazenda, Guido Mantega. Naquela época, aparentemente o senhor Joesley Batista não se incomodava com a corrupção no governo, pois não gravou nenhuma conversa comprometedora com os petistas que o achacavam. E isso talvez se explique pelo fato de que, durante os governos petistas, a JBS saiu de um faturamento de R$ 4 bilhões em 2005, ano em que recebeu seu primeiro financiamento camarada do BNDES, para R$ 183 bilhões em 2016. O banco estatal de desenvolvimento tornou-se sócio da JBS, com 21% de participação, atrelando-se ao senhor Joesley Batista por razões que somente Lula da Silva pode explicar. O empresário, é claro, jura que “as relações com o BNDES foram absolutamente republicanas”.

Mas o senhor Joesley Batista terá a oportunidade de esclarecer na Justiça todos esses aspectos obscuros de suas acusações. Conforme nota oficial, o presidente Michel Temer decidiu processar o empresário, obrigando-o a explicar por que preservou, na delação e na entrevista, “os reais parceiros de sua trajetória de pilhagens, os verdadeiros contatos de seu submundo”. O Brasil também quer saber.


MBL LANÇA CAMPANHA PARA ACABAR COM SEMIABERTO E ENDURECER PUNIÇÕES


GAZETA DO POVO - PR -19/06
O Movimento Brasil Livre (MBL) lança hoje uma campanha pela aprovação do projeto que endurece as condições para a progressão de penas e acaba com o regime semiaberto. Pela proposta, que já está em tramitação na Câmara, para ter direito a progressão a pessoa que cometeu o delito deve ter cumprido pelo menos dois terços da pena, além de passar pela avaliação de uma comissão interdisciplinar para verificar se o apenado tem, de fato, condições de ir para o sistema aberto.

No caso de crime hediondo, o movimento defende que seja necessário o cumprimento de quatro quintos da pena. Atualmente, a legislação penal brasileira permite que a progressão seja concedida após o cumprimento de um sexto da pena no regime anterior, além do atendimento do critério de bom comportamento carcerário, comprovado pelo diretor do estabelecimento em questão. No caso de crime com menor potencial ofensivo, o apenado deve cumprir dois quintos da pena para depois ter direito à progressão.

A campanha promovida pelo MBL vai começar com um vídeo de exposição com dados sobre o regime semiaberto e a taxa de condenados que progridem de regime e voltam a cometer crimes. Além disso, o grupo incentivará a população a telefonar para gabinetes dos líderes congressistas e do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), para que o projeto seja pautado o mais rapidamente possível. Uma equipe do MBL, em Brasília, ficará incumbida de ir de gabinete em gabinete cobrar uma posição dos deputados. Caso a proposta vá para votação, o movimento pretende fazer mobilizações nas dependências da Casa.

“Nossos critérios para a progressão de regime estão entre os mais frouxos no mundo. Ao mesmo tempo, o que os dados das secretarias de segurança de diversos estados do país mostram é que a maioria dos que progridem voltam a cometer crimes”, disse Kim Kataguiri, do MBL. “Na prática, o criminoso cumpre um sexto da pena e já está livre para voltar a roubar, matar. Temos muitos presos? Temos, mas o fato é que, hoje, a maioria dos condenados que vão para a cadeia nunca deveriam ter saído dela, daí a importância de revermos o semiaberto e os critérios para a progressão de regime”, acrescentou.

A iniciativa merece aplausos e apoio ativo por parte da população ordeira. Sabemos que a impunidade é o maior convite ao crime, não as tais “desigualdades sociais”, como alega a esquerda. Pobreza não precisa ser sinônimo de bandidagem. Ninguém mata a sangue frio uma vítima inocente porque precisa comer. Estamos falando de marginais da pior espécie, reincidentes, quase sempre casos perdidos. Não serão recuperados com “educação”, como acreditam os filhos de Rousseau.

O primeiro grande problema é a enorme quantidade de crimes não resolvidos, o que gera o clima de impunidade total. O segundo problema maior é quando se consegue pegar o marginal, mas ele pouco tempo depois já está solto, de volta às ruas. É acabar com essa molezinha absurda que o MBL pretende com essa campanha. E não consigo imaginar uma pessoa decente sendo contra o arrocho da punição para bandidos perigosos.

O podcast Ideias mais recente, comigo, com Leandro Narloch e Alexandre Borges, foi justamente sobre a impunidade e o ambiente de “justiçamento”, tomando como base o caso do garoto que teve a testa tatuada. A sensação de impunidade ajuda a explicar o pulo da civilização para a barbárie quando cada um resolve fazer “justiça” com as próprias mãos.

A iniciativa do MBL, repito, merece total apoio. Liguem, mandem mensagens, atormentem a vida dos deputados, pois é esse exercício de cidadania que os brasileiros de bem precisam aprender a fazer com maior frequência. Os nossos representantes precisam saber o que queremos. Enquanto a esquerda organizada faz barulho com suas ONGs de “direitos humanos”, nós ficamos apenas lamentando nos bares e no Facebook.

Chega! Vamos mostrar que queremos esses marginais atrás das grades, não soltos pelas ruas do nosso país, que já tem 60 mil assassinatos por ano!

Governador-geral da República - CARLOS ANDREAZZA

O GLOBO - 20/06

Janot trata formalmente o encontro, entre pessoas em pleno exercício de seus direitos políticos, como evidência de ameaça à ordem pública



Aécio Neves é — ainda — um homem livre. Investigado, mas livre. Senador suspenso, mas cidadão livre.

Sim. É verdade. Nunca me enganou. Não me enganava quando, posando de vítima, acusava os petistas de abuso de poder econômico em campanha eleitoral. Não me enganará agora, abusador que também foi. Mas esse é juízo pessoal. Não há, porém, qualquer condenação a Aécio Neves — sujeito livre, portanto.

Escrevo isso, essa obviedade repetida, porque alarmado com as licenças que Rodrigo Janot se concede. O procurador-geral da República — que não raro subjuga o Supremo — é hoje a única autoridade que faz o que quer neste país. Ou haverá outra forma de compreender a ousadia, golpe nas liberdades individuais, de que reforce o pedido de prisão preventiva contra Aécio usando uma foto — divulgada pelo próprio senador — em que este aparece em reunião com integrantes de seu partido?

É isto mesmo: Janot trata formalmente o encontro — entre pessoas em pleno exercício de seus direitos políticos — como evidência de ameaça à ordem pública, exemplo de “uso espúrio do poder político”. É escandaloso. Porque, ora, é possível — não serei eu a botar a mão no fogo por ele — que haja ações do senador para obstruir as investigações contra si; mas tais certamente não estarão representadas naquela imagem.

Note o leitor que, na investida de Janot, muito mais que um movimento contra Aécio Neves, vai explícita a criminalização da atividade política. É da ordem da barbárie difundir uma reunião entre políticos como conspiração contra a democracia. Mas essa generalização — que a todos iguala por baixo — serve a um projeto. A reabilitação do PT, especificamente a de Lula, só está em curso porque se enterrou a política na lama.

_____________

Escolhido por Dilma Rousseff e reconduzido ao cargo por ela, Janot é hoje — mérito consequente de muita determinação — o homem mais poderoso do Brasil, trabalhador incansável por fazer justiça, guerreiro cujo entusiasmo por acusar poderosos é outro desde que o PT saiu do Planalto.

Está aí um patriota a quem o impeachment liberou.

Senhor da agenda que pauta — e paralisa — a vida pública no país, há semanas tem o presidente sob a ameaça de uma denúncia ao Supremo, com cujo ritmo brinca como se fosse João Gilberto com o tempo de uma canção. Nesse período, diariamente, vaza-se à imprensa que talvez a cousa seja formalizada amanhã, mas que, bem, pode ser na semana que vem. Depende. Depende — digo eu — do momento. Do momento político. De um em que Michel Temer se encontre vulnerável.

Na luta purificadora contra a desgraça da política, causa que atualiza jacobinos em janotistas, Janot se permite desviar do timing da Justiça — que é o próprio compasso do estado de direito — para aplicar a estratégia do lutador que calcula os golpes round a round, toureando o adversário, à espera da brecha por meio da qual encaixar o soco. Uma hora ela aparece. O país aguarda em suspensão. É para nocautear o vampiro, afinal. Ninguém gosta dele. Logo, aplaude-se. Até o dia em que esses métodos se voltarem contra um dos nossos. Aí, será o quê? Estado policial?

Normal também se tornou que, como num folhetim, surjam — diariamente — novas supostas revelações contra o presidente, vendidas (e compradas) como comprometedoras antes mesmo de que se possa examiná-las. Não importa. Normalizou-se entre nós que se condene — a conta-gotas, numa narrativa cuja técnica única é a sobreposição de acusações — antes de se investigar.

Nesta fase raçuda, a Procuradoria-Geral da República — que se alçou a quarto poder — atua com paixão sem precedentes, razão pela qual recorre a expedientes que os legalistas, esses ultrapassados, consideram heterodoxos. Por exemplo: admitir e veicular como prova uma gravação não periciada. Qual é o problema?

Os detalhistas prejudicam o Brasil. Essa é a verdade. Não entendem que o mandato de Janot termina em setembro e que ele é o primeiro procurador-geral da República da história que quer deixar um legado. Qual é o problema?

Qual é o problema, aliás, no acordo firmado com os donos da JBS, tornados inimputáveis, se em troca o que falam puder derrubar o presidente? É aceitável — no justiçamento — improvisar e queimar etapas do processo legal, se há uma meta maior a ser alcançada. Se para incriminar Temer, por que se apegar a formalismos? Se for possível apeá-lo da Presidência, que mal haverá na licença poética que o faz bandido protagonista do conjunto corruptivo — de matriz e condução petista — que modelou o império dos Batista? Mesmo sabendo que o campeão nacional em que se anabolizou a JBS foi bombado durante os governos do PT, que gravidade haverá no recurso seletivo ficcional que põe Lula e Dilma (e o BNDES) numa nota de rodapé dessa trama?

Não sem aviso, chegamos ao momento em que um tipo como Joesley Batista diz que Temer é líder da “maior e mais perigosa organização criminosa deste país” — e fica tudo por isso mesmo. Ai, ai...

Os desconfiados — teóricos da conspiração — atrapalham o Brasil. Essa é a verdade.

Dificilmente, contudo, atrapalharão o movimento orgânico dos que militam para que Janot se candidate a senador em 2018, pelo Estado de Minas Gerais, na vaga a ser aberta por Aécio Neves. Mas pode ser a governador. Será pelo PT? Ou disfarçaremos numa linha auxiliar? Rede?

Carlos Andreazza é editor de livros