terça-feira, dezembro 03, 2013

Torcendo a favor - EDITORIAL GAZETA DO POVO PR

GAZETA DO POVO PR - 03/12

A presidente Dilma foi dura com os analistas que, há dois anos, previam exatamente o quadro que está se verificando agora


O presidente da República, seja ele quem for, é adulado e exaltado com tal intensidade que passa a ter dificuldade em aceitar críticas e raramente se dispõe a examinar os argumentos apresentados por quem não concorda com as ações do governo. Não raro, o governante reage com aspereza e tenta convencer o público de que o crítico torce contra o país. Com Dilma não é diferente. Em suas declarações, a presidente reage mal aos críticos, não percebendo que, ao mostrar os erros, apontar defeitos e sugerir alternativas, eles contribuem mais do que os aduladores.

Quem está fora do governo pode se sentir mais à vontade para propor soluções algumas vezes arriscadas ou mais ousadas. Por isso, as análises e as propostas devem ser examinadas com cautela pelo governo. Porém, é um erro desprezar o material precioso existente no conteúdo das críticas, especialmente aquelas feitas por pessoas com alto nível de conhecimento e experiência. Mas a presidente Dilma, acreditando que os críticos torcem contra, os coloca como “eles”, aqueles que estão contra “nós” e contra a nação.

É dessa forma que a presidente e o ministro Mantega vêm reagindo aos alertas repetidos sobre a má condução dos gastos públicos e das pirotecnias feitas pelo governo para fechar as contas fiscais. Analistas internacionais e críticos internos vêm falando, há bastante tempo, que o governo está jogando fora várias conquistas da gestão macroeconômica obtidas nas duas últimas décadas. Eles têm lembrado que, além dos males sociais advindos de tal panorama, o Brasil sofrerá efeitos externos, entre eles o rebaixamento da nota dada ao país pelas agências de classificação de risco.

No campo da economia interna, o resultado do mau gerenciamento da política econômica é sempre o trio indesejável: inflação, menor crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e mais desemprego. Acompanhando esse trio terrível, vêm sempre o aumento da dívida e a elevação da taxa de juros. A presidente Dilma foi dura com os analistas que, há dois anos, previam exatamente esse quadro, enquanto seu ministro da Fazenda dizia que as previsões dos críticos eram simples “piadas” de pessoas que torciam contra e só viam o caos.

Infelizmente, os críticos começam a ter razão. A sequência prevista foi profética: os gastos públicos aumentaram, o superávit primário diminuiu, a dívida pública cresceu, as manipulações contábeis se repetiram, as agências internacionais avisaram que podem rebaixar a nota do Brasil e o Banco Central (BC) reagiu aumentado a taxa básica de juros, a Selic. Após uma série de reduções, o BC rapidamente mudou a rota e a Selic foi, na última reunião do Conselho de Política Monetária (Copom), elevada para 10% ao ano.

Durante todo esse tempo, quem não entrou na cantilena de acusar os críticos foi o presidente do BC, Alexandre Tombini. Embora cumprindo rigorosamente as decisões emanadas da Presidência da República – as quais ele sabia não serem as mais adequadas –, no momento apropriado Tombini apoiou a reação do Copom e a taxa Selic começou a ser elevada, culminando com os 10% da última reunião do órgão.

A dívida pública já vinha aumentando por causa do aumento dos gastos públicos em porcentuais superiores ao crescimento da arrecadação tributária. Agora, é de se prever que ela crescerá mais – por causa do aumento da Selic – e poderá ultrapassar os 60% do PIB (no conceito de dívida bruta, que é utilizado pelo FMI). Embora o PIB venha tendo fraco desempenho no governo Dilma, o atual panorama ainda não provocou substancial elevação do desemprego. Mas isso é questão de tempo. Caso o quadro não seja revertido, inevitavelmente a taxa de desemprego vai aumentar.

A situação é de tal forma preocupante que surgiu um crítico novo, contra o qual a presidente Dilma não poderá esbravejar: o ex-presidente Lula, para quem o governo deve se preocupar e tentar evitar o rebaixamento da nota atribuída ao Brasil pelas agências de rating. Para o ex-presidente, o rebaixamento seria péssimo para o país e para o governo, pois não seriam mais os críticos internos, supostamente inimigos do governo, mas o mercado internacional dizendo que a política econômica vai mal.

Se Lula se juntou aos críticos, não dá mais para afirmar que eles torcem contra. Quem sabe com o ex-presidente vocalizando os mesmos alertas feitos pelos críticos, o governo resolva dar ouvidos a seus argumentos.

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