domingo, dezembro 09, 2012

Emendas & sonetos - DENISE ROTHENBURG

CORREIO BRAZILIENSE - 09/12


Depois da história de recriação da Arena, o partido da ditadura militar, surge entre integrantes do DEM, a proposta de retomar o antigo nome: Partido da Frente Liberal (PFL) e, com ele, as bandeiras de defesa da iniciativa privada. "Quem inventou o DEM foi embora montar o PSD. É o mesmo grupo. Talvez fossem eles os fisiológicos. Tanto é que estão negociando com o governo", diz o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS), referindo-se ao ex-ministro Jorge Bornhausen e seu grupo.

Pai da ideia, Onyx Lorenzoni considera a história do PFL bonita. O partido foi fundamental no processo de redemocratização. Passado o governo Sarney e Fernando Collor, os pefelistas ficaram um curto período na oposição durante o governo Itamar Franco. As portas da esperança e do Poder Executivo se abriram novamente quando Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Fazenda, apresentou o projeto do Plano Real ao Congresso.

O parceiro que o PSDB queria para esse projeto era o PT. Mas os petistas recusaram apoio, uma vez que Lula despontava com vantagens nas pesquisas para presidente da República. Foi naquele momento que os detentores de uma grande bancada — o PFL era maior do que o PT é hoje — se apresentaram para apoiar o elenco de medidas do Plano. Foi aí que começou a história de parceria entre PSDB e PFL. A relação era tumultuada. Certa vez, a então primeira-dama Ruth Cardoso soltou uma frase que ficou famosa, ao dizer que havia o PFL de Gustavo Krause e o de Antonio Carlos Magalhães. Ela gostava do PFL de Krause.

Hoje, os democratas olham com uma certa nostalgia para o antigo nome, dos tempos de glória. Mas, quem tem voz ativa em alto e bom som dentro do partido considera irrelevante tratar dessa mudança, nesta altura do campeonato — faltando menos de dois anos para a eleição de 2014. "Será que vale à pena isso agora? Essa não é a questão crucial para o partido hoje. A prioridade é outra", comenta o senador José Agripinio Maia, do Rio Grande Norte, líder da bancada no Senado.

Agripino não deixa de ter razão quando expõe suas preocupações com esse tema. A mudança de nome traz embutida a ideia de fracasso do DEM. No geral, os democratas consideram que o pior já passou. Eles perderam quase duas dezenas de deputados, expulsaram o então senador Demostenes Torres, depois que apareceu enroscado no caso Carlos Cachoeira, isso para ficar apenas nas questões congressuais.

Tudo o que o DEM não quer agora são discussões paralelas que desviem o foco daquilo que o partido deseja mostrar em curto e médio prazos. Nunca um partido ficou tão feliz ao conquistar uma prefeitura, como foi o caso de ACM Neto, em Salvador. Especialmente, contra um candidato do PT, Nelson Pellegrino, detentor do apoio do governo estadual baiano, capitaneado pelo também petista Jaques Wagner. A presidente Dilma Rousseff, para lá de popular no Nordeste, fez questão de ir à Bahia ajudar Pellegrino, assim como o ex-presidente Lula. Para o democratas, a hora de viabilizar as administrações, transformá-las em vitrines e lançar programas que sirvam de contraponto às realizações do governo de Dilma. Fora isso, é emenda. E, reza o ditado, a emenda, geralmente, fica pior do que o soneto.

Por falar em Dilma...

A reportagem da The Economist sobre o fraco crescimento do Brasil acoplada à sugestão de troca da equipe econômica irritou muito a presidente Dilma Rousseff. Internamente, a equipe comenta que o governo cortou os juros — para ira dos bancos, daí um dos motivos para as referências nada elogiosas à administração da petista. Mas ela tem clareza total sobre um dado: se a economia não reagir a contento no próximo ano, vai ter muita gente fazendo coro com a revista estrangeira. Afinal, dentro da própria base do governo muitos têm ponderado que o Brasil não está nem esteve no epicentro da crise econômica, mas ficou no terceiro trimestre deste ano com um crescimento inferior ao registrado nos Estados Unidos. Só isso já vai dar pano para mais de metro. Vamos acompanhar.

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