domingo, setembro 25, 2011

MARTHA MEDEIROS - O medo de errar


O medo de errar
 MARTHA MEDEIROS 
ZERO HORA - 25/09/11

A gente é a soma das nossas decisões.

É uma frase da qual sempre gostei, mas lembrei dela outro dia num local inusitado: dentro do súper. Comprar maionese, band-aid e iogurte, por exemplo, hoje requer expertise. Tem maionese tradicional, light, premium, com leite, com ômega 3, com limão, com ovos “free range”. Band-aid, há de todos os formatos e tamanhos, nas versões transparente, extratransparente, colorido, temático, flexível.

Absorvente com aba e sem aba, com perfume e sem perfume, cobertura seca ou suave. Creme dental contra o amarelamento, contra o tártaro, contra o mau hálito, contra a cárie, contra as bactérias. É o melhor dos mundos: aumentou a diversificação. E com ela, o medo de errar.

Assim como antes era mais fácil fazer compras, também era mais fácil viver. Para ser feliz, bastava estudar (magistério para as moças), fazer uma faculdade (Medicina, Engenharia ou Direito para os rapazes), casar (com o sexo oposto), ter filhos (no mínimo dois) e manter a família estruturada até o fim do dias. Era a maionese tradicional.

Hoje, existem várias “marcas” de felicidade. Casar, não casar, juntar, ficar, separar. Homem com mulher, homem com homem, mulher com mulher. Ter filhos biológicos, adotar, inseminação artificial, barriga de aluguel – ou simplesmente não tê-los.

Fazer intercâmbio, abrir o próprio negócio, tentar um concurso público, entrar para a faculdade. Mas estudar o quê? Só de cursos técnicos, profissionalizantes e universitários, há centenas. Computação Gráfica ou Informática Biomédica? Editoração ou Ciências Moleculares? Moda, Geofísica ou Engenharia de Petróleo?

A vida padronizada podia ser menos estimulante, mas oferecia mais segurança, era fácil “acertar” e se sentir um adulto. Já a expansão de ofertas tornou tudo mais empolgante, só que incentivou a infantilização: sem saber ao certo o que é melhor para si, surgiu o medo de crescer.

Todos parecem ter 10 anos menos. Quem tem 17, age como se tivesse 7. Quem tem 28, parece ter 18. Quem tem 39, vive como se fossem 29. Quem tem 40, 50, 60, mesma coisa. Por um lado, é ótimo ter um espírito jovial e a aparência idem, mas até quando se pode adiar a maturidade?

Só nos tornamos verdadeiramente adultos quando perdemos o medo de errar. Não somos apenas a soma das nossas escolhas, mas também das nossas renúncias. Crescer é tomar decisões e, depois, conviver pacificamente com a dúvida. Adolescentes prorrogam suas escolhas porque querem ter certeza absoluta – errar lhes parece a morte.

Adultos sabem que nunca terão certeza absoluta de nada, e sabem também que só a morte física é definitiva. Já “morreram” diante de fracassos e frustrações, e voltaram pra vida. Ao entender que é normal morrer várias vezes numa única existência, perdemos o medo – e finalmente crescemos.

5 comentários:

Anônimo disse...

Linda, linda, e linda como sempre. Ela consegue sempre falar tudo que acontece.

Anônimo disse...

Realmente muito válido seu excelente texto. Nos dias atuais, o medo de errar, em realidade apresenta-se pela insegurança que os jovens e até adultos têm pelas inúmeras alternativas e facilidades do mundo moderno ( várias ofertas em tudo). Ainda penso que é melhor decidir errado do que não decidir pois caso contrário ficaremos na busca da certeza absoluta que não existe e o que faz a pessoas crescerem na vida é exatamente levantar-se após um fracasso ou frustração. Abs.

Anônimo disse...

Olá, estava eu procurando um artigo sobre medo de errar, pra me ajudar, e tbm pra falar sobre ele no meu blog, e vim "cair" aqui. E adorei essa queda!!! Adorei o texto. Muito claro, muito simples, e muito inteligente.
Hj, com quase 50 anos, tendo q recomeçar a minha vida, pq acabei de ficar vúva, e tendo q correr atrás de uma vaga no mercado de trabalho, após duas décadas fora dele, me encontro com medo de errar numa entrevista pra desempenhar uma função na qual não tenho o menor conhecimento. E pós a leitura desse texto, chego a conclusão que: ou eu viro adulta e vou lá, e erro, ou não, consigo ou não o emprego, e parto pra próxima entrevista. Ou, continuo sem errar e sem emprego!! Valeu. Bjss

Anônimo disse...

Fiquei Maravilhada com tudo que li.

Parabéns é um trabalho excelente!
Porque as pessoas não vêem a vida de forma clara e simples assim como você ve!
Se tudo fosse assim, seria tão mais facil.

Obrigada por nos fazer refletir, com esses textos Maravilhosos!

Lucas Frighetto Pereira disse...

Informática Biomédica!!! Que legal, Martha! Formei agora e achei muito legal você citá-lo. Esse é meu discurso de orador: http://www.youtube.com/watch?v=bOy30Pil4Ec . Se tiver um tempinho, gostaria que assistisse. Muito obrigado!