sábado, março 06, 2010

DORA KRAMER


O que for necessário

O ESTADO DE SÃO PAULO - 06/03/10


Não é de hoje que se fala no governo sobre a possibilidade de o presidente Luiz Inácio da Silva se licenciar do cargo para se dedicar sem amarras legais à candidatura de Dilma Rousseff.

A hipótese começou a ser levantada no ano passado entre parlamentares do PT e circulou com naturalidade no Palácio do Planalto até pouco antes das últimas pesquisas mostrando a candidata em situação de quase empate com o pré-candidato da oposição.

A negativa oficial, portanto, não soa veraz quando dita em tom veemente.

O que há é a inconveniência tática de se falar no assunto no momento. Quando a oposição ainda não mostrou como vai jogar, o quadro de candidaturas estaduais está indefinido e Dilma aparece bem nas pesquisas.

A apresentação de uma arma dessa potência agora poderia, por exemplo, levar o adversário a se reforçar e o governo acabar patrocinando o que mais teme: a formação da chapa José Serra-Aécio Neves.

Seria também um atestado da fragilidade da candidata. Se não preside a própria campanha, teria credenciais para presidir o Brasil?

Ademais, a substituição de Lula não é uma tarefa das mais simples. Primeiro é preciso resolver o problema em Minas. Se o PT desiste de candidatura própria, se José Alencar será ou não candidato ao Senado, ao governo estadual ou se continua vice-presidente da República.

Se ficar, a história é uma. Facilita. Se sair, complica. O único político da linha sucessória disponível para assumir é o presidente do Senado, José Sarney. O próximo da fila seria o presidente do Supremo Tribunal Federal.

Deixar o governo nas mãos de José Sarney - protagonista de todos os escândalos do Senado no ano passado - e do PMDB - símbolo do fisiologismo a quem a PT se refere como "um mal necessário" - poderia pôr em risco o êxito do projeto, dado o impacto negativo que provavelmente teria na opinião pública.

Sarney diz que jamais cogitaria aceitar porque quem foi presidente não poderia ocupar o lugar como interino.

De lá para cá o senador prestou-se a tantos papéis indignos de um presidente da República, que considerar uma ofensa ocupar a cadeira principal do Palácio do Planalto por dois meses recende a dissimulação.

Além do que Sarney é especialista em negar que vai para em seguida ir.

De qualquer modo isso não é assunto para ser resolvido neste momento. Petistas não comprometidos com a tarefa de negar oficialmente a licença consideram que no cenário de hoje o afastamento de Lula mais atrapalharia que ajudaria.

Exatamente pelas razões que o presidente apresentou ontem para negar a licença. "Seria uma irresponsabilidade para com o mandato que me foi dado pelo povo brasileiro." Assim também provavelmente o público receberia a notícia da licença.

As análises que tomam por base o cenário de hoje mudam inteiramente na perspectiva de o favoritismo de Dilma não se confirmar ao longo da campanha. Nesse caso, o presidente Lula avalia o quadro e, se necessário for, sai do cargo para entrar na campanha.

Por ora, Dilma caminha bem, a oposição vive uma fase ruim e a Justiça Eleitoral dá animadores (do ponto de vista do Planalto) sinais de complacência.
Descendente

A defesa de José Roberto Arruda segue cumprindo seu roteiro sem queimar etapas. Tentou negociar uma licença em troca da liberdade e agora pede a prisão domiciliar do governador.

Mas dificilmente Arruda poderá se desviar da rota da renúncia. Pelas seguintes circunstâncias: há provas incontestáveis contra ele, seus aliados querem salvar as respectivas peles, o Estado que governa é politicamente fraco e, não bastasse, é reincidente.
Expiatório

Correligionários de José Serra atribuem a queda nas intenções de voto no Sudeste ao desgaste do prefeito Gilberto Kassab junto à população da cidade de São Paulo.

Cruzam dados daqui e de lá e chegam à seguinte conclusão: a redução de preferências na capital foi tão acentuada que influiu de maneira desastrosa na média da região.

Pode até ser, mas pela lógica é de se supor que o cálculo da pesquisa seja feito para evitar esse tipo de distorção.
Pelo menos

O ideal na cabeça do tucanato seria que Aécio Neves fosse o porta-voz do anúncio oficial da candidatura José Serra. Independentemente da composição da chapa.
Via das dúvidas

Amigos de José Serra acham "impossível" que ele desista, no entanto lembram que em 2006 ele quase desistiu de deixar a prefeitura.

Minutos antes da entrevista coletiva para anunciar a decisão de disputar o governo de São Paulo.

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